21/12/2015

Capítulo UM

O rapaz conhece a garota


— Bom dia, e obrigada por ligar para a Jammin Sportswear. Meu nome O
é Krickitt.
 Quando telefonei para a Jammin naquela manhã de outono, em 1992,
esperava ser atendido por um representante do serviço de atendimento ao
consumidor com a voz carregada pelo tédio, que provavelmente preferia passar sua manhã fazendo qualquer outra coisa que não fosse atender a um telefone.
Mas a pessoa que me atendeu era exatamente o oposto. Quando Krickitt disse “bom dia”, parecia que ela realmente desejava que eu tivesse um bom dia. E a voz dela até mesmo se parecia com a de um grilo¹, animada e cantarolante.
 — Oi, Krickitt. Eu sou o treinador Kim Carpenter, da Universidade
Highlands, no Novo México. Estou ligando para pedir algumas informações
sobre as jaquetas para técnicos de beisebol que vi no seu catálogo.
 Eu sempre gostei de beisebol, desde que era criança. Pensava que
poderia ser o técnico de um time algum dia, assim como meu pai. Então,
quando consegui meu primeiro emprego com o time do Highlands Cowboys, em Las Vegas, no novo México,² foi como se um sonho se realizasse.
Entretanto, mesmo os sonhos têm seus momentos mais mundanos, e, sendo assim, resolvi encomendar jaquetas esportivas para mim e para os meus assistentes.
 A primeira conversa com Krickitt não foi nada parecida com as que
aparecem nos filmes, no entanto, enquanto discutíamos preços e cores, fiquei mais e mais interessado naquela vendedora que falava ao telefone e que tinha um nome tão incomum. Ela era tão incrivelmente agradável e atenciosa que eu não consegui evitar de pensar que meu dia ficou melhor simplesmente por ter conversado com ela.
 Nossa conversa terminou, mas eu não parava de pensar naquela garota
chamada Krickitt. Havia algo diferente e especial naquela voz e na
personalidade dela que eu não conseguia realmente explicar. Percebi que
aquele não era apenas um emprego para ela; era como se fosse uma missão. Era como se ela houvesse decidido ser a pessoa mais atenciosa e prestativa com quem seus clientes pudessem conversar, todos os dias. Se fosse assim, então, para mim, ela era um sucesso estrondoso.
 Decidi ligar alguns dias depois para pedir mais algumas informações.
 — Bom dia, e obrigada por ligar para a Jammin Sportswear. Meu nome
é Keri.
 Keri. Não era o nome que eu queria ouvir, e, rapidamente, tive que
encarar que a verdadeira razão da minha ligação não tinha a ver com a encomenda das jaquetas. Keri parecia ser uma mulher gentil, mas eu queria conversar com Krickitt. Eu tinha que fazer aquilo acontecer, então pensei rapidamente.
 — Oi, Keri. Eu queria algumas informações sobre um produto. Eu havia
conversado com a Krickitt.
 — Só um momento.
 Senti meu coração acelerar enquanto aguardava.
 — Oi, aqui é Krickitt. Posso ajudá-lo?
 — Oi, Krickitt. Sou o treinador Carpenter da Universidade Highlands.
Liguei para pedir informações sobre uma jaqueta há alguns dias.
 Enquanto Krickitt pesquisava as informações em seu computador, tive
alguns segundos para pensar. O que havia naquela pessoa chamada Krickitt
que, de repente, fizera com que eu me sentisse como um adolescente nervoso e
apaixonado? Ela era apenas uma vendedora fazendo seu serviço, e estava na Califórnia, não no Novo México, onde eu morava. Afastei aqueles pensamentos enquanto pedia a ela que me enviasse algumas amostras de cores antes de terminar a conversa.
 Quando as amostras chegaram, eu as espalhei sobre uma mesa. Meus pensamentos começaram a disparar em direções inesperadas.
 “Será que foi ela mesma quem escolheu estas cores? Será que ela segurou estas amostras em suas mãos? Opa, espere aí! Acalme-se!”
 Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo, ou por que aquilo estava acontecendo. Eu era um adulto, afinal de contas!
 Afastei aqueles pensamentos da minha mente, embora estivesse estranhamente ansioso para conversar, ao telefone, com uma certa vendedora, ao ligar, novamente, para formalizar a encomenda de uma jaqueta nas cores roxo e cinza.
— Bom dia, e obrigada por ligar para a Jammin Sportswear. Meu nome
é Krickítt.
 Sucesso!
 — Oi, Krickitt. Aqui é o treinador Carpenter. Eu...
 — Treinador Carpenter! — Ela interrompeu, com uma sensação de alegria que me surpreendeu, pois ela sabia que eu iria encomendar apenas uma jaqueta com ela. — Ótimo voltar a falar com você.
 Comecei a imaginar o que haveria de “ótimo” na ligação. Seria a possibilidade de concluir outra venda, ou seria realmente por minha causa?
Tentei determinar se havia algo mais do que uma afabilidade profissional no som daquela voz que eu não conseguia tirar da cabeça. Encomendei a jaqueta normalmente. Depois, encomendei outra, de um modelo diferente. Quando chegou, a peça ficou tão popular entre os outros treinadores das equipes esportivas da universidade que todos queriam uma igual, e eu voltei a ligar para encomendar outras.
 Alguns meses se passaram desde aquela primeira conversa com a minha vendedora favorita, e, agora, nós passávamos muito mais tempo simplesmente conversando um com o outro do que realmente realizando transações de negócios. Até que, certo dia, logo antes de encerrarmos a ligação, Krickitt mencionou que não trabalharia no dia em que eu planejava ligar para verificar um pedido, e me deu o número do telefone da sua casa.
 Depois daquilo, comecei a ligar para Krickitt em seu apartamento, e, depois de pouco tempo, paramos de fingir que as ligações eram a respeito de roupas esportivas. Passávamos o tempo nos conhecendo melhor e, frequentemente, conversávamos por mais de uma hora. Independentemente de quanto tempo passássemos conversando, nós nunca queríamos desligar, mesmo quando a minha conta de telefone passava de quase nada para 500 dólares ao mês. Naquela época não havia e-mail! Nem mensagens de texto, e poucas pessoas tinham telefone celular. Krickitt e eu estávamos presos a telefones fixos, mas eu não me importava com a inconveniência ou as despesas.
Poder falar com ela fazia tudo valer a pena.
 Eu finalmente descobri a história por trás daquele nome tão incomum, Krickitt. Seu nome verdadeiro era Krisxan (cuja pronúncia era “Kris-Ann”), um nome que refletia sua ascendência grega. O apelido Krickitt surgiu quando sua tia-avó disse que Krisxan, então com dois anos, não conseguia parar quieta, e ficava correndo e pulando por toda parte como um grilo. Portanto não me surpreendia saber que Krickitt era atlética e cheia de energia.
 Além disso, seu pai havia trabalhado como técnico de times de basquete e beisebol em escolas de ensino médio e sua mãe era treinadora de ginastas, um interesse que Krickitt desenvolveu quando criança, logo que conseguiu subir e descer sozinha de uma trave de equilíbrio. Na verdade, ela aprendeu a dar uma pirueta para trás apoiada em uma só mão antes de aprender a escrever seu próprio nome.
 Eu achava que era fanático por esportes, mas, comparado a Krickitt, não sabia quase nada sobre o assunto. Ela praticava ginástica desde o jardim de infância, todos os dias, na academia de sua mãe, e treinava cinco horas por dia durante o verão. Aos 16 anos, rompeu o manguito rotador, um músculo em seu ombro direito, e o cirurgião ortopédico que cuidou dela lhe disse que uma cirurgia provavelmente acabaria com qualquer chance de obter uma bolsa de estudos dessas que as faculdades concediam aos melhores atletas. Assim, ela se resignou e continuou treinando, com ótimos resultados em exercícios de solo e na trave de equilíbrio. Não deixou que um pouco de dor a impedisse de conquistar seus sonhos.
 Ninguém se espantou quando Krickitt recebeu ofertas de bolsas de estudo de várias universidades com programas respeitáveis na área de ginástica. Ela acabou se decidindo pela Universidade Estadual da Califórnia em Fullerton, que havia lhe oferecido uma bolsa integral para participar da equipe de ginástica. Ela ganhou duas vezes o campeonato acadêmico americano, enquanto esteve lá, antes de desistir das competições, quando rompeu o ligamento cruzado anterior, durante o último ano do curso.
 Embora muitas das nossas primeiras conversas fossem sobre esportes, Krickitt não perdeu tempo e logo mencionou a parte espiritual do nosso relacionamento. Depois de alguns meses de amizade, ela escreveu isto: ‘Você disse que eu posso perguntar qualquer coisa a você, então preciso ser honesta, Kimmer. Tenho muita fé, quero dizer, a fé e o cristianismo são importantes para mim. Não me vejo tendo um relacionamento de verdade com uma pessoa que não crê.”
 Sua fé era sua vida, e, independentemente do que ela pensasse a meu respeito, ela tinha que esclarecer suas dúvidas sobre minha vida espiritual antes que pudéssemos ter qualquer tipo de relacionamento. Enquanto conversávamos sobre aquela parte de nossas vidas, descobrimos que éramos ambos cristãos, mas nossas jornadas espirituais haviam seguido rumos diferentes.
 Eu tinha 14 anos quando percebi que podia ser cristão e, ainda assim, ser um garoto normal. Fiquei tão contente com isso que mal consegui esperar até voltar para casa e contar para meus pais. Entretanto, quando comecei a lhes contar o que eu sentia, eles não acharam nada encantador.
 Meus pais costumavam ir à igreja de vez em quando, mas não acho que eles chegassem a sentir algo parecido com o que eu sentia naquele momento.
Nunca fomos à missa regularmente, embora nossa avó Helen nos levasse sempre que podia. Em família, nunca falamos sobre religião.
 Krickitt entendeu o cristianismo ao ler um livrinho chamado As Quatro Leis Espirituais. A mensagem deixou-a alegre e curiosa, e ela decidiu, naquele momento, que dedicaria sua vida àqueles princípios. Mas ninguém podia prever que, naquele dia, Krickitt tomaria a decisão que a guiaria pelo resto da vida. Naquela época, ela nem mesmo sabia o que aquela escolha representaria para sua vida. Ela não contou a ninguém sobre sua decisão e não correu atrás de qualquer programa da igreja naquela época. Foi só quando começou a faculdade que, finalmente, envolveu-se com uma igreja e com seu pastor: o pastor Steve McCracken.
 No verão de 1991, Steve organizou e conduziu uma missão à Hungria.
Como Krickitt havia acabado de estourar o joelho, estava com bastante tempo livre. Quando ouviu a respeito da viagem, percebeu que aquela era uma oportunidade de usar todo o tempo e a energia que sempre havia dedicado à ginástica com alguma outra atividade. Assim, ela e sua amiga (que, posteriormente, veio a se tornar sua colega de quarto) Megan Almquist aceitaram o desafio de se tornar missionárias durante nove semanas no verão daquele ano. Ser cristã era o centro da sua vida. E, honestamente, adorei aquilo nela.
 Minhas conversas com Krickitt ficaram cada vez mais longas e envolventes. Também começamos a nos corresponder por meio de cartas. Elas eram como os telefonemas, mandávamos cartões com mensagens curtas no início, mas não demorou muito até que cada uma das cartas de Krickitt chegasse a dez páginas. Nem consigo imaginar o número de e-mails que teríamos trocado se essa opção existisse naquela época.
 Como acontece em qualquer início de relacionamento, não demorou até tocarmos no assunto de enviarmos nossos retratos um para o outro, e, no começo da primavera de 1993, decidimos que havia chegado a hora de dar aquele passo. Não havia a possibilidade de enviarmos fotos apenas com um clique do mouse naquela época. Assim, estávamos ambos em meio a um processo longo e desgastante de esperar que o carteiro chegasse, dia após dia.
Enviei um livreto com informações e fotos do time dos Highlands Cowboys para Krickitt, onde minha foto aparecia. Depois, esperei impacientemente por uma foto que daria um rosto à garota maravilhosa que eu vim a conhecer tão bem nos últimos meses. Tentei me convencer de que estava interessado apenas no coração e no espírito dela; mas, ao mesmo tempo, imaginei que as coisas ficariam ainda melhores se ela fosse bonita.
 Quando o envelope de Krickitt chegou, alguns dias depois, eu o abri apressadamente e olhei pela primeira vez para uma mulher com cabelos escuros, olhos azuis reluzentes e um sorriso fantástico. Achei que ela era muito bonita.
 Entretanto, era óbvio que havia outra pessoa na foto, pois eu percebi um braço ao redor dos ombros de Krickitt. Quem estaria na foto que ela havia recortado? Seria um namorado? Ou outro “amigo especial” como eu? Senti uma dor no coração ao considerar aquela opção.
 “Vá com calma, cara”, foi o que disse a mim mesmo. “Você está indo com muita sede ao pote”.
 Eu estava louco para telefonar para Krickitt para saber se ela também havia recebido a minha foto naquele dia, mas estava um pouco nervoso sobre a resposta que ela poderia me dar. Naquela noite eu liguei para perguntar.
 — Recebi! — disse ela. Eu não quis perguntar o que ela havia achado da foto, então apenas esperei até que ela dissesse: — Sabe, eu cheguei a pensar... “até que esse moço é bonitinho”.
 Nós dois rimos. Eu tinha medo de que aquela conversa fosse tensa e desconfortável, mas, felizmente, não foi.
 Mencionei que havia percebido o recorte em sua foto, de modo que alguém ficasse de fora.
 — Cortei, sim — respondeu ela. Novamente esperei, ainda com medo
do que poderia ouvir. — Cortei minhas amigas para fora da foto porque elas
são bonitas!
  Nós dois sabíamos qual seria o próximo passo: um encontro em pessoa.
Este seria um passo importante em nosso relacionamento. Afinal de contas, quando você sabe que está verdadeiramente ligado a alguém antes que passe algum tempo fisicamente junto dessa pessoa? Assim, em fevereiro de 1993, Krickitt e eu começamos a conversar sobre a possibilidade de um encontro e de passarmos algum tempo juntos, embora qualquer viagem tivesse que ser curta devido às nossas rotinas no trabalho. Naquela época, já estávamos conversando por quase cinco horas por semana, e imaginei que uma passagem de avião não custaria muito mais do que eu já estava gastando com a conta de telefone.
Assim, perguntei à Krickitt se ela gostaria de vir a Las Vegas para ver o meu time disputar algumas partidas. Ela disse que não sabia. Antes de decidir, teria que pensar a respeito.
 E assim, ela pensou e, disse ela, que rezou. Anos mais tarde, quando Krickitt permitiu que eu lesse seu diário, com as notas que escrevera naquela época, vi que ela realmente havia feito aquilo. Uma das entradas dizia: “Ai Deus, preciso muito da sua sabedoria e orientação para me guiar com relação à Kimmer. Uma parte de mim quer se encontrar com ele, acho que vai ser bem divertido. Outra parte não quer, porque não desejo começar a nutrir sentimentos por ele se esse relacionamento não for algo bom, isto é, uma coisa que me deixe feliz. Se for uma coisa boa, por favor, me dê um sinal e me ajude a fazer as coisas direito.”
 Após algum tempo, Krickitt me explicou sobre suas preocupações em uma longa carta. Em resumo, ela queria ter certeza de que nenhum de nós tinha expectativas fora da realidade em relação ao encontro. Sua outra preocupação era a de não querer me prejudicar, porque como treinador esportivo, e modelo de conduta a ser seguido pelos atletas, eu tinha muito a perder se a situação parecesse diferente do que realmente era: dois amigos que se encontravam.
  Após dois meses conversando sobre o assunto, Krickitt tomou a decisão de vir ao Novo México para que, finalmente, pudéssemos nos conhecer em pessoa. Ao me preparar para a chegada dela, reservei um quarto de hotel nas proximidades do meu apartamento. Imaginava que Krickitt estivesse se guardando para seu futuro marido, mas minha situação era diferente: eu teria que ser honesto com ela a respeito do meu passado. Eu também sabia o quanto isso seria importante para ela. Dirigi durante duas horas até chegar ao aeroporto de Albuquerque, onde iria recebê-la. Naqueles dias anteriores aos ataques de 11 de setembro não havia restrições impedindo as pessoas de passarem pelas áreas de segurança, então consegui encontrá-la já no portão de desembarque. Eu a vi assim que ela desembarcou do avião; já havia visto a foto dela e, assim, sabia por quem devia procurar, mas acho que poderia tê-la
identificado bem no meio de uma multidão, mesmo que não soubesse nada sobre sua aparência. Eu sentia que tínhamos muita coisa em comum, e que já tínhamos uma amizade maravilhosa. Embora soubesse que ela era muito atraente, quando finalmente a vi pessoalmente, mal pude acreditar no quanto ela era bonita. Depois de todas àquelas horas ao telefone, eu finalmente tinha uma pessoa viva real para associar àquela voz encantadora.
 Quando, finalmente, não tínhamos mais que nos preocupar com os valores astronômicos da conta de telefone, conversamos quase sem parar durante todo o fim de semana. Naquela primeira noite, conversamos sobre tudo: nossa infância, nossas famílias, nossos empregos, nossos amigos e a nossa incrível amizade à distância. E conversamos sobre fé também.
 Depois de tantas horas, nós dois paramos para recuperar o fôlego. Em meio ao silêncio, Krickitt olhou pela janela. Vi o espanto em seu rosto quando ela apontou para algo do lado de fora. Virei-me para olhar e percebi que o sol já havia nascido. Nós havíamos conversado a noite inteira sem perceber. 
 No dia seguinte, Krickitt assistiu aos dois jogos dos Cowboys, e o time perdeu ambos por uma diferença mínima e à noite, após os jogos, voltamos a conversar. Eu não estava muito feliz com os resultados das partidas, e, além disso, minha mãe tinha estado doente. Contei a Krickitt sobre minha mãe e abri meu coração de uma maneira que nunca havia feito com qualquer outra pessoa. Fiquei maravilhado por ela ter me entendido e simpatizado com a
minha dor e, naquele momento, soube que isso era algo especial. Ela queria conhecer os meus medos e minhas dificuldades, e eu queria descobrir as mesmas coisas em relação a ela.
 — A vida não é justa; é apenas a vida. — Ela disse, de maneira suave e confiante. — Todos têm momentos em que sentem como se estivessem à deriva, abandonados mesmo... Mas não é verdade. Não para quem tem fé.
 Em algum momento, no meio da noite, nós dois acabamos dormindo no sofá. No dia seguinte, krickitt voltou para a Califórnia. E eu tive dificuldades para me manter acordado enquanto orientava os jogadores que passavam pela terceira base.
 Mais tarde, fiquei sabendo que, quando sua colega de quarto, Lisa, a deixara no aeroporto antes de viajar, ela disse a Krickitt que se sentia como se estivesse se despedindo definitivamente da amiga. Depois, quando Lisa veio buscá-la no aeroporto, ficou óbvio para ela que era apenas uma questão de tempo até que Krickitt saísse do apartamento que dividiam.
 Não há dúvida de que nós dois tínhamos amigos que sussurravam sobre o fim de semana que passamos juntos, especialmente porque Krickitt nem chegou a dormir no quarto de hotel que eu havia lhe reservado. Mas nós dois sabíamos que nada havia acontecido naquele fim de semana, e que poderíamos fazer um relato completo para as nossas mães, se assim quiséssemos. O tempo em que estivemos juntos foi incrível, divertido e maravilhoso, e, mesmo assim, nem cheguei a beijá-la durante todo o fim de semana. Acredite se quiser, não
cheguei nem mesmo a tentar. Não era o objetivo do fim de semana.
 Quando abri a minha caixa de correio dois dias depois de Krickitt ter partido, encontrei um cartão de agradecimento. Era tão bonito que senti, ainda mais, a falta dela. Fiquei emocionado com a maneira como ela escrevia. Ela tinha muita convicção do que sentia, e meus próprios sentimentos eram um espelho daquilo que ela descreveu. Eis o que ela escreveu:
 KIMMO,
 Pensei bastante sobre o fim de semana, e foi um momento cheio de risos e lágrimas, verdadeiramente maravilhoso. Nunca imaginei que seríamos tão compatíveis quando estivéssemos juntos. Gostei muito de conhecê-lo melhor no fim de semana que passou. Foi muito especial enxergar quem é o verdadeiro Kim Carpenter. Você tem um coração que, em minha opinião, é lindo. Sua gentileza, seu carinho, humildade e singularidade me encantaram por completo. A maneira com que você se abriu e confiou em mim para mostrar a pessoa que
verdadeiramente é, e me contar as coisas pelas quais passou, significam muito para mim.
 Além disso, também fiquei encantada com algumas coisas que conversamos. Rezei muito pelo nosso fim de semana juntos, pedindo que ficássemos bem, um com o outro, e que tivéssemos conversas agradáveis e construtivas. Bem, acho que deu certo, não foi? Tenho muitas perguntas a respeito de nós. Estou curiosa para saber o que vai acontecer conosco. Estou pronta para prosseguir com este relacionamento e ver aonde as coisas vão nos levar. Acho que podemos dar um passo adiante. Tenho medo, mas o risco faz parte do amor. Obrigada por me tratar com tanta gentileza e por fazer com que eu me sentisse tão especial e adorada.
 Kim Carpenter, eu o adoro e o estimo muito.
 Com todo o meu amor, KRICKITT.

 Na semana seguinte após Krickitt ter voltado para casa, conversamos todos os dias ao telefone. E, mesmo assim, nunca era o bastante. No fim de semana eu teria alguns dias de folga, e Krickitt rapidamente aceitou meu convite para fazer outra visita. Passamos o tempo todo conversando, caminhando em uma trilha e passeando de carro pelas montanhas.
 Eu teria que viajar para San Diego algumas semanas depois, para recrutar novos jogadores para o time, e não resisti à possibilidade de combinar aquilo com uma visita a Krickitt em Anaheim. Enquanto eu estava lá, ela me apresentou a seus pais, seu irmão e sua cunhada, e a alguns de seus amigos. Eles foram extremamente gentis e receptivos; seu pai, Gus, e eu nos demos bem desde o primeiro momento em que conversamos. Aquilo não chegava a surpreender, pois nossa ligação com o beisebol criou uma amizade instantânea.
 Fui à igreja com Krickitt e conheci o pastor Charles Swindoll, que era um pregador incrível. Quanto mais compreendia a fé de Krickitt, mais a compreendia, e vice-versa.
 Retornei à Califórnia no final de maio, mas não sem apreensão. Krickitt e eu tínhamos algumas perguntas sérias a responder. Os sentimentos que nutríamos um pelo outro eram obviamente profundos e genuínos, mas será que estaríamos verdadeiramente apaixonados de uma forma que nos levaria ao casamento? Eu sentia muito amor por ela, mas queria amá-la por todas as razões certas, e com todas as intenções corretas também.
 Saímos para jantar e, depois, caminhamos na praia, na região de Del Mar. Não foi nada parecido com as nossas interações costumeiras, quando falávamos sobre toda e qualquer coisa durante horas. A conversa na praia foi pontuada por longos períodos de silêncio. Sabíamos a importância que aquela conversa tinha, e que cada palavra era especial e importante. 
 Não havia dúvida de que teríamos que tomar uma decisão sobre o futuro de nosso relacionamento. Não conseguia imaginar a possibilidade de não ter Krickitt em minha vida a partir daquele momento, e esperava que ela sentisse o mesmo em relação a mim. Mas tínhamos empregos e famílias que estavam a centenas de quilômetros de distância uns dos outros. Fazia apenas oito semanas que havíamos nos encontrado pessoalmente pela primeira vez.
Será que já tínhamos certeza de que estávamos prontos para passar o resto de nossas vidas juntos?
 Houve momentos naquela noite em que pensei que teríamos que dar um fim em nosso relacionamento. Não podia ficar do jeito que estava.
Poderíamos progredir, ou poderíamos acabar com tudo. Seria melhor nos separarmos agora, antes que a relação se aprofundasse demais ou será que já era tarde demais para fazer isso? Será que um de nós devia mudar de cidade? Krickitt devia pedir demissão? Ou eu é que devia me demitir? Tínhamos que decidir, mas levamos um bom tempo para conversar sobre todos os aspectos enquanto caminhávamos de mãos dadas pela praia. Não tardou muito e um de
nós mencionou a possibilidade de casamento, mas não de uma maneira animada ou carregada pela emoção. Estranhamente, o assunto foi citado de maneira tranquila, como se fosse um dos resultados possíveis e lógicos de nosso relacionamento. Nós dois concordamos que queríamos que o relacionamento tomasse aquele rumo. Mas, embora decidíssemos que era aquilo que queríamos, o assunto ainda não estava concluído. Krickitt me disse que eu teria que conversar com seu pai e pedi-la em casamento.
 Naquela época, o senhor e a senhora Pappas estavam em Omaha, no estado de Nebraska, para assistir ao campeonato mundial de beisebol universitário. Eu não queria ter que esperar até que eles voltassem para casa, então telefonei para o hotel em que estavam hospedados. Embora já conhecesse os pais de Krickitt e tivéssemos um relacionamento amigável, eu estava bastante nervoso a respeito daquela conversa importante, igual a qualquer homem nessa situação.
 Quando Gus atendeu ao telefone, conversamos sobre algumas trivialidades e depois falamos sobre beisebol durante alguns minutos.
Finalmente, respirei fundo e cheguei ao propósito real daquela ligação.
 — Krickitt e eu estamos nos dando muito bem. Quero pedir a ela que se case comigo. Entretanto, ela me disse que eu teria que falar com você
primeiro.
 — Ela disse isso mesmo?
 — Sim, senhor.
 — Kim, ficaríamos honrados em tê-lo como nosso genro.
 Eu estava determinado a fazer com que o pedido fosse o mais criativo possível. Depois de comprar um anel de diamantes, liguei para Megan e Lisa, as garotas que dividiam o apartamento com Krickitt, para me ajudarem a preparar o cenário para a minha visita, O apartamento tinha um portão de segurança, e meu plano era fazer com que uma das outras garotas atendesse ao interfone de modo que eu pudesse fazer uma surpresa para Krickitt. Elas ficaram felizes em participar do plano, e me ajudaram a entrar no prédio sem que Krickitt
descobrisse. Vesti um terno e uma gravata, apesar da minha aversão habitual a trajes formais e, sob a janela, comecei a gritar o nome de Krickitt.
 Ela logo apareceu na sacada, uma Julieta moderna usando short e um par de tênis. Eu trazia flores, um urso de pelúcia com balões amarrados e o estojo onde o anel estava guardado. Aquela visão incomum a deixou sem palavras, mas apenas por um instante.
 — O que você está fazendo aqui? — gritou ela, da sacada.
 — Bem... Você aceita? — gritei de volta. 
Meu coração se apertou quando ela desapareceu da sacada, mas demorou apenas um segundo até que conseguisse vê-la correndo pelas escadas para vir até onde eu estava.
 — Aceito o quê? — perguntou ela, cheia de expectativa.
 Coloquei um dos joelhos no chão, olhei-a nos olhos e fiz a pergunta mais importante da minha vida.
 — Aceita ser minha companheira para o resto da vida? Krisxan, você
quer se casar comigo?
 Krickitt respirou fundo e disse as palavras que eu sabia que viriam, mas que estava ansioso para ouvir.
 — Sim, eu aceito.
 Depois de nos abraçarmos, nós nos afastamos um do outro. Depois de uma breve pausa, perguntamos:
 — E agora, o que fazemos?
 Minha ideia original era de nos casarmos na primavera do ano seguinte.
Krickitt admitiu que não queria esperar tanto. Concordei com a ideia dela e, assim, propus uma data mais próxima: no Natal daquele ano. Mas, para ela, ainda estava muito distante. Assim, escolhemos 18 de setembro, em pouco menos de três meses, como o dia em que nos tornaríamos marido e mulher.
 Voltei a Las Vegas com o objetivo de preparar o apartamento para a minha futura esposa, e Krickitt entrou de cabeça nos planos para o casamento. Ela começou a organizar as coisas ainda em Anaheim para que a cerimônia acontecesse perto de Phoenix, no estado do Arizona, na igreja Bíblica de Scottsdale.
 Assim, em 18 de setembro de 1993, uma noite perfeita de fim de verão, no deserto do Arizona, eu estava no altar em frente a um público de mais de uma centena de amigos, familiares e convidados, segurando a mão de Krickitt. E fiz meus votos: 
 — Krisxan, passei a amá-la muito desde que a conheci. Agradeço a você por me amar dessa maneira tão bela e especial. Prometo amá-la e respeitá-la completamente. Prometo sustentá-la e protegê-la em tempos de necessidade e dificuldade. Prometo ser fiel, honesto e aberto; devotar-me a cada uma de suas necessidades e desejos. Acima de tudo, prometo ser o homem por quem você se apaixonou. Eu amo você.
 A resposta de Krickitt encheu meu coração de amor e graça.
 — Kimmer, eu amo você. O dia de hoje finalmente chegou; o dia em que lhe darei minha mão em casamento. Prometo lhe ser fiel, amá-lo em tempos bons e em tempos difíceis, e estar igualmente pronta para escutá-lo quando você precisar compartilhar algo comigo. Prometo ser aberta, honesta e digna de sua confiança, e prometo apoiá-lo todos os dias. Eu me sinto honrada em ser sua esposa. Sou toda sua, Kimmer. E eu amo você.
 Depois de fazermos nossos votos, o pastor pediu que meu padrinho de casamento, Mike Kloeppel, trouxesse as alianças. Mike colocou a mão por dentro de seu paletó, mas, em vez de tirar as alianças, tirou de lá uma luva preta de beisebol, novinha e recém-engraxada, de modo que brilhasse. Mike me entregou a luva. Eu a coloquei na mão e fiz um sinal para o pai de Krickitt, que abriu um grande sorriso, ficou em pé e arremessou uma bola de beisebol para que eu a apanhasse. Peguei a bola ainda no ar, joguei a luva por cima do ombro para Mike e removi um pedaço de fita adesiva que estava na bola. Dentro da bola estava a aliança de Krickitt. Como foi o amor pelo esporte que fez com que nos conhecêssemos, achei que aquilo seria apropriado para marcar nosso interesse comum de uma forma inesquecível.
 A recém-casada senhora Kim Carpenter e eu fomos, em lua de mel, para Mau³, e quando retornamos passamos a morar em Las Vegas, no Novo México, logo no início do ano letivo. Eu comecei a trabalhar com o meu time de beisebol, e Krickitt entrou de cabeça em sua nova vida, com o mesmo entusiasmo, espírito e fé que a haviam transformado em uma excelente
vendedora. Eu tive a vantagem de continuar a morar na mesma cidade e ter o mesmo emprego, mas minha nova esposa teve que começar do zero em um ambiente totalmente novo. Aquilo não foi um problema para ela. Não demorou até que se tornasse a especialista em estatística do time, coordenadora em caráter informal dos lanches preparados para o time, durante os jogos contra equipes de outras universidades, e voluntária para qualquer tarefa em que sua presença fosse necessária.
 Krickitt também assumiu o cargo de técnica em exercícios no Centro para Saúde e Boa Forma do Hospital Regional da região nordeste do estado, instalado no compus da própria universidade Highlands do Novo México, onde ela preparava programas de exercícios para ajudar as pessoas a alcançarem seus objetivos individuais de preparo físico. Seu jeito amistoso e sua experiência com ginástica olímpica fizeram com que ela se tornasse um sucesso
instantâneo com os outros funcionários do setor e com os clientes.
 Decidimos que o Dia de Ação de Graças seria uma época perfeita para fazermos nossa primeira visita depois de casados aos pais dela, em Phoenix. Na terça-feira da semana do Dia de Ação de Graças, antes de sairmos de viagem, Krickitt e eu jantamos e depois ficamos abraçados no sofá para assistir à TV. Eu estava com o meu braço ao redor dela, e ela apoiava sua cabeça no meu peito.
Sem qualquer aviso, ela olhou para mim e perguntou:
 — Você está feliz, Kimmer?
 Não consegui resistir ao desejo de beijá-la antes de responder.
 — Não consigo imaginar como poderia estar mais feliz.
 E a beijei mais uma vez. 


¹A palavra grilo em inglês é cricket, e é pronunciada da mesma forma que o
nome da personagem Krickitt. (N. T.) 

² Não confundir a cidade de Las Vegas, no estado do Novo México, onde o
personagem Kim Carpenter reside, com a cidade de Las Vegas, no estado de
Nevada. As duas têm o mesmo nome, mas a cidade conhecida pelos cassinos e
por ser o cenário do seriado CST e de filmes como Onze Homens e Um Segredo
é a que está situada no estado de Nevada. (N. T.) 


³ Uma das ilhas que compõem o arquipélago do Havaí. (N. T.) 

Postado por Adm¹

Um comentário: