22/12/2015

Capítulo DOIS

Num piscar de olhos



   Desviei o olhar do carro e procurei em volta, tentando encontrar a mulher que havia se tornado minha esposa há menos de dez semanas, ao mesmo tempo buscava descobrir uma maneira de colocar as bagagens em quantidade suficiente para nosso primeiro fim de semana de Ação de Graças com os pais de Krickitt e ainda assim ter espaço para nós dois, além de um dos membros da equipe de treinadores que iria pegar uma carona conosco até o aeroporto de Phoenix.
— Ei, Krick. Você vai ficar aí dentro o dia inteiro? — Gritei em direção
à porta aberta de nosso apartamento.
 — Estou aqui. — Anunciou Krickitt, aparecendo sob o batente da
porta. Ela praticamente pulava pela calçada em minha direção, assim como o inseto com o qual sua tia a havia comparado anos atrás. Não consegui desviar os olhos dela enquanto vinha até onde eu estava.
 — Eu amo você, Kimmer. — Disse ela ao se aproximar, repentinamente ficando imóvel, algo que era bastante incomum para ela.
 — Eu amo você, Krickitt. — Respondi. Enquanto Krickitt forçava mais algumas bagagens para dentro do porta-malas, voltei para o apartamento, querendo dar uma última olhada para ver se havíamos deixado algo para trás. Em seguida, tranquei a porta.
 Enquanto eu ia em direção ao carro, pensei por alguns momentos nas coisas maravilhosas que Deus havia me dado durante os últimos anos, em particular um novo emprego e uma nova esposa. Não conseguia acreditar que dois meses já haviam se passado desde que eu e Krickitt saímos em lua de mel, desfrutando das areias quentes e do paraíso tropical do Havaí. Agora, estávamos nos aproximando do feriado do dia de Ação de Graças, e o Natal não tardaria a chegar. O tempo estava passando rápido demais. Eu queria aproveitar cada dia, e estava ansioso para começar a observar algumas tradições familiares com minha esposa, começando com a celebração do nosso primeiro feriado importante juntos.
 — Ei, Kimmer, você vai ficar aí fora o dia todo? 
 Krickitt tentou ficar séria, mas não conseguiu fazer aquilo por muito tempo e logo abriu um imenso sorriso. Nós rimos enquanto eu sentava no banco do motorista. Dei a partida no carro, saí do estacionamento e entrei no meio do trânsito do feriado.
 Teríamos uma longa viagem pela frente, mas, depois de sair de nossa cidade no Novo México, o trajeto seria relativamente tranquilo. Viajaríamos o tempo todo nas rodovias interestaduais e passaríamos pelas cidades de Santa Fé, Albuquerque e Flagstaff, finalmente chegando ao nosso destino em Phoenix¹. Originalmente, havíamos planejado sair durante a manhã para chegar à casa dos Pappas antes que escurecesse, mas nosso passageiro não conseguiria sair do trabalho antes da hora do almoço. Quando o pegamos e nos dirigimos para o sudoeste, na rodovia 1-25, já passava das 14 horas. Chegaríamos á casa dos meus sogros perto da meia-noite, mas Krickitt e eu não nos importávamos. Era o nosso primeiro feriado oficial como marido e mulher, e nada mais importava, desde que estivéssemos juntos.
 Passamos por Santa Fé e Albuquerque, mas logo depois de entrarmos na rodovia 1-40 em direção à divisa com o Arizona, comecei a sentir que ficaria resfriado. Tentei ignorar a sensação, pois ainda tínhamos um bom caminho pela frente, mas Krickitt percebeu que havia algo errado. Ela me perguntou se eu estava bem. Eu lhe disse que não estava me sentindo muito bem, mas que estaria melhor em alguns minutos.
 Mas não melhorei em alguns minutos. Na verdade, fiquei pior. Quando Krickitt disse que deveríamos parar em algum lugar para comprar algum medicamento, eu não estava em condições de discutir com ela. Assim, fizemos uma rápida parada para comprar o que eu precisava.
 — Acho que eu deveria dirigir por algum tempo. — Krickitt sugeriu. — Não me importo. Você pode se deitar no banco de trás e descansar.
 Eu estava me sentindo horrível, então não vi motivo para negar aquela oferta. — Vai ser ótimo. — Eu disse com um suspiro, antes de acrescentar: — Não era assim que eu planejava impressionar meus sogros em nosso feriado prolongado com eles.
 Krickitt olhou para mim com seu tradicional sorriso no rosto; eu lhe devolvi o melhor sorriso que consegui esboçar, mas não havia como comparar. Ela assumiu o volante com nosso passageiro ao seu lado enquanto eu tentava me deitar no banco de trás. Nosso carro era novo, mas não fora feito para permitir que um homem adulto se deitasse no banco de trás. Entretanto, buscando o conforto e ignorando a segurança, percebi que poderia dobrar o encosto do banco traseiro e esticar as minhas pernas para dentro do porta-malas. Fiz o melhor que pude para encontrar uma posição confortável enquanto esperava que o remédio fizesse efeito.
 Logo depois das 18 horas, passamos por Gallup, a última cidade grande antes da fronteira entre o Novo México e o Arizona. A noite estava se aproximando rapidamente, e Krickitt ligou os faróis do carro. Eu, finalmente, consegui encontrar uma posição razoavelmente confortável e caí no sono, com a minha cabeça encostada nas costas do assento do motorista e minhas pernas em direção à traseira do carro. Repentinamente, acordei com um grito agudo de “Cuidado!” enquanto o carro desacelerava rapidamente e fazia uma curva forte à esquerda. Levantei-me bem a tempo de sentir o impacto me arremessar contra o encosto do banco de Krickitt. Como minha cabeça havia deslizado do encosto do banco em direção à porta do motorista, olhei para o espelho retrovisor preso à porta e consegui enxergar faróis se aproximando rapidamente de nós, ficando cada vez maiores, até encherem completamente o espelho em uma fração de segundo.
 Minha esposa deu um grito horripilante.
 O relatório do policial rodoviário disse que, por volta das 18h30 do dia 24 de novembro de 1993, a oito quilômetros da divisa entre o Novo México e o Arizona, um sedan branco envolveu-se em uma colisão com um caminhão e uma caminhonete. Investigações posteriores revelaram que um caminhão vermelho, com um carregamento de peças automotivas, começou a ter problemas no motor enquanto viajava pela I-40 na direção oeste. Consequentemente, o motorista diminuiu a velocidade para 40 quilômetros por hora, na faixa da direita. Viajando na velocidade normal para uma rodovia interestadual, Krickitt chegou por trás do caminhão, que estava oculto em uma nuvem de fumaça preta produzida por um filtro de combustível defeituoso. Durante o dia, seria possível enxergar a fumaça, mas, como a noite havia chegado, Krickitt não conseguiu ver o caminhão a distância. 
 Embora as luzes de emergência do caminhão não estivessem ligadas, Krickitt acabou percebendo luzes traseiras movendo-se lentamente em meio à fumaça do escapamento. Ela pisou no freio com força e virou o volante para a esquerda. Ao mesmo tempo, uma caminhonete que estava vindo logo atrás chocou-se conosco.
 O canto direito do para-choque do nosso carro bateu no canto traseiro esquerdo do caminhão. Então, quando o carro começou a girar e Krickitt lutava para manter o controle, a caminhonete veio por detrás e se chocou contra nós, atingindo o lado do motorista. O impacto fez com que nosso carro saísse voando pelos ares. Ele voou por 30 metros, chocou-se contra o chão e rolou lateralmente, capotou uma vez e meia e deslizou por 32 metros, de cabeça para baixo, antes de parar no acostamento da estrada.
 Depois de sermos atingidos, não me lembro de ouvir nada, nem de sentir qualquer dor imediata, mas me lembro de todas as sensações de movimento que aconteceram desde o momento do impacto até nosso carro finalmente parar. De repente, senti que meu rosto estava preso entre o assento do motorista e a lateral esquerda do carro. Minha cabeça foi jogada para trás. Depois, rolei para o outro lado do carro e senti que as minhas costelas baterem contra a reentrância que cobre a roda. A seguir, tive uma experiência momentânea de estar flutuando, rolando e girando em câmera lenta, como em uma cena de sonho em um filme. Finalmente, senti um formigamento estranho nas costas. Foi aí que tudo parou.
 Eu estava atordoado demais para dizer qualquer coisa durante alguns segundos, enquanto meu cérebro começava a clarear as ideias. Quando consegui raciocinar novamente, não pensei sobre a possibilidade de que podia estar ferido. Não conseguia sentir nada. A única coisa em que consegui pensar foi na minha esposa.
 — Krickitt! — Gritei. Em resposta, apenas o silêncio. — Krickiiiiitt!! 
 Eu sabia que ainda podia ouvir, pois reconheci o som do motor do carro funcionando. Mas a mulher que era minha esposa há dois meses não me respondia. Levei alguns segundos para olhar ao meu redor e descobrir onde estava. Depois de um momento, percebi que o carro estava de cabeça para baixo e eu, deitado no teto, pelo lado de dentro. O teto solar havia se
estilhaçado quando o carro deslizou no asfalto, e eu havia percorrido a última parte daquele trajeto de 32 metros deslizando sobre vidro quebrado e asfalto.
 Mais uma vez, chamei por minha esposa aos gritos e, conforme o som da minha voz se perdia na distância, senti algo molhado no meu rosto. Depois de tudo o que havia acontecido, imaginei que provavelmente estava com alguns cortes e sangrando. Tentei levar a mão até o rosto para tatear ferimentos. Vi minha mão mover-se lentamente em direção ao rosto, como se estivesse em meio a um sonho, ou como se fosse a mão de alguma outra pessoa. Conforme ela chegou mais perto, uma mancha vermelha apareceu, e depois outra. A mão, em si, não parecia estar ferida, então imaginei que o sangue, de algum modo, estava vindo de algum corte na minha cabeça.
 Tentei fazer com que as manchas parassem de surgir mantendo a mão longe do rosto, mas elas continuaram a brotar. O sangue escorreu pelo meu braço e começou a pingar sobre o teto solar quebrado. Eu finalmente olhei para cima. Enxergar tudo de cabeça para baixo foi uma sensação estranha para mim: os encostos dos assentos apontando para baixo, na minha direção, e as janelas em lugares diferentes de onde deviam estar.
 Minha mente, ainda atordoada pelo acidente, finalmente compreendeu que o sangue que escorria não era meu. Acima de mim, minha esposa estava suspensa de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança. Seus braços pendiam para baixo. Seus olhos estavam fechados. Ela não se movia. Nós estávamos a pouco mais de meio metro de distância, mas não conseguia alcançá-la. Como já havia escurecido, não conseguia vê-la claramente para identificar que tipo de ferimentos ela poderia ter. De repente, percebi que ela poderia até mesmo estar morta.
 — Krickitt! — Gritei mais uma vez, usando a voz imperativa, típica dos treinadores esportivos, esperando conseguir fazer com que ela acordasse. Os olhos dela não se abriram, mas ela se moveu um pouco no assento, deu um suspiro longo e estrangulado, e ficou imóvel novamente.
 Pensei que havia acabado de ouvir o último suspiro da vida da minha esposa.
 Eu a chamei pelo nome mais uma vez e comecei a tentar sair do carro, mas não conseguia me mover e, no início, não consegui descobrir o porquê.
Não havia nada em cima de mim ou bloqueando meu caminho, e havia uma rota de fuga bem na minha frente, através do vidro traseiro, que havia desaparecido por completo. Depois de alguns momentos, percebi que não conseguia sentir as minhas pernas. Eu era incapaz de me mover da cintura para baixo.
 Meu nariz começou a formigar, e levantei a mão para tocá-lo. Senti algo pontiagudo. Fiquei chocado ao descobrir que havia tocado o osso na base de onde o meu nariz deveria estar.
 Por fim, ouvi outra voz, mas não era a de Krickitt.
 — Me dê a sua mão! Eu vou ajudá-lo a sair!
 Olhei para a janela, diretamente nos olhos de um estranho, um bom samaritano que veio nos ajudar.
 — Não consigo mexer as pernas — Gritei de volta.
 — Desligue o motor! Essa coisa pode explodir a qualquer minuto.
 Depois de um momento de confusão, percebi que o homem estava conversando com o nosso passageiro, que estava sentado no banco do carona. De algum modo, ele havia conseguido sobreviver àquela tragédia e sofrido apenas um deslocamento no ombro. Embora estivesse um pouco zonzo, ele havia conseguido sair do carro, e, ao ouvir o comando do estranho, enfiou a mão para dentro para desligar a chave.
 — A chave quebrou dentro do contato. — Ele disse.
 — Você tem que dar um jeito de desligar o carro! — Exigiu o estranho.
 Depois de mexer e dedilhar desesperadamente, a alavanca da ignição virou, e o motor ficou em silêncio.
 — Certo, estou indo pegá-lo. — O homem disse. Deitando de bruços, ele rastejou pela janela ao meu lado. Eu o agarrei pelos ombros, e ele me segurou com uma mão enquanto usava a outra para nos arrastar para fora do carro e sobre a grama que havia ao lado da rodovia.
 Foi então que percebi que outro veículo havia parado. Um casal veio em nossa direção, deixando as crianças dentro da sua van.
 — Crianças, fiquem aí dentro. — O homem disse, enquanto se aproximava do nosso carro. Ele olhou para os destroços e o sangue e, sem mostrar qualquer pânico, fez uma oração antes de tentar nos ajudar. Sua esposa veio até onde eu estava na grama para ver o que ela podia fazer para ajudar. Ela temia que eu pudesse estar sangrando por causa de possíveis ferimentos abertos, até descobrir que a maior parte do sangue que me cobria não era meu.
 O casal se apresentou como Wayne e Kelli Marshall, e eles se ofereceram para fazer tudo que pudessem para nos auxiliar. Naquele momento, a única coisa que eu precisava saber era que minha esposa não estava morta.
 Enquanto o homem que havia me resgatado me enrolava em cobertores que estavam em sua caminhonete, outro carro parou e a motorista veio correndo até onde eu estava. Ela disse algumas palavras e depois parou abruptamente, com um olhar horrorizado no rosto, me reconhecendo. 
 — Meu Deus! Você é o filho de Danny Carpenter! Sua prima Debbie é a minha melhor amiga! Vou ligar para a sua família — A mulher disse, e se afastou para dar os telefonemas.
 Eu não consegui evitar de me impressionar com as circunstâncias de tudo que estava acontecendo. Estávamos ali, bem no meio de lugar nenhum, e já havíamos encontrado um socorrista, alguém que pudesse rezar por nós e uma amiga da família.
 Os motoristas dos outros dois veículos não tinham ferimentos visíveis, e mesmo os dois passageiros que viajavam na caminhonete apresentavam apenas ferimentos leves. O mesmo não podia ser dito a respeito de Krickitt e de mim. Além de estar muito ferido, eu também estava atordoado, em estado de choque. A única coisa em que conseguia pensar era em Krickitt, presa dentro do carro capotado a alguns metros de distância, parecendo estar se esvaindo em sangue, ou como se já estivesse morta. Sua cabeça estava presa entre o volante e o teto. Percebi que, se estivesse dirigindo, eu teria sido morto instantaneamente, porque não caberia no espaço que sobrara... Entretanto, o caso de Krickitt também era grave. Podíamos ver que, se alguém soltasse o cinto de segurança antes que sua cabeça estivesse livre, aquilo provavelmente faria com que ela quebrasse o pescoço, se já não estivesse quebrado.
 Em poucos minutos, a polícia e as ambulâncias começaram a chegar. Era óbvio que a porta do carro teria que ser cortada para que Krickitt pudesse ser retirada das ferragens, mas os paramédicos temiam ter que esperar todo aquele tempo para poderem começar o tratamento. Assim, uma delas, DJ Coombs, rastejou para dentro das ferragens, depois soube que ela sofria de uma forte claustrofobia, e começou a aplicar injeções em Krickitt, monitorando seus sinais vitais enquanto ela ainda estava presa de cabeça para baixo pelo cinto de segurança. Krickitt parecia oscilar entre a inconsciência e a consciência. Suas pupilas se dilatavam e contraíam alternadamente, um sintoma clássico, conforme aprendi mais tarde, de trauma cerebral grave.
 Enquanto a equipe de resgate ainda estava cortando a porta do carro, nosso passageiro e eu fomos colocados em uma ambulância. No caminho para o hospital em Gallup, os paramédicos começaram a catalogar meus ferimentos. Minha orelha esquerda havia sido quase decepada, assim como meu nariz. Eu também estava com outras lacerações no rosto, uma concussão, duas costelas quebradas e uma fratura na mão. Mais tarde, os médicos descobririam também problemas no tecido do pulmão e um ferimento no músculo cardíaco.
 Enquanto a ambulância corria pela estrada, ouvi um dos paramédicos entrando em contato com o hospital pelo rádio.
 — Temos duas vítimas de acidente, ambas do sexo masculino, um em condição crítica, o outro em condição séria. A terceira vítima ainda está no local do acidente, em condição gravemente crítica.
 Aquelas palavras não eram nada boas, mas percebi que, pelo menos, significavam que Krickitt ainda estava viva.
 Quando chegamos à sala de emergência do hospital Rehoboth McKinley em Gallup, fui imediatamente levado para fazer um raio-X e uma tomografia computadorizada. A equipe médica descobriu um grande inchaço atrás da minha orelha esquerda, que pensaram indicar a possibilidade de uma fratura craniana. Quando terminei os exames, Krickitt já estava recebendo o tratamento salva-vidas em outra área da sala de emergência. Assim, não podia vê-la, mas eu sabia que as notícias não seriam boas. Afinal, eu a havia visto dentro dos destroços do carro, e os socorristas demoraram mais de meia hora para conseguir tirá-la de lá.
 Ninguém me dava uma resposta direta a respeito da condição de Krickitt. Como ela estava? Iria recuperar-se? Ficaria bem? Ninguém me dizia nada, e percebi que aquilo era um mau sinal. Mais tarde, fiquei sabendo que, quando uma das auxiliares de enfermagem ouviu dizer que Krickitt ainda estava viva, algumas horas depois de ser internada no hospital, ela recusou-se a acreditar. Ela nunca havia visto alguém sobreviver a ferimentos tão graves na cabeça.
 Assim que Krickitt chegou ao hospital, toda a equipe médica se concentrou na prestação de socorro a ela, embora aquilo não fosse motivo para eu reclamar. A equipe da sala de emergência havia começado um tratamento preliminar comigo, mas não aceitei receber qualquer sedativo ou passar por qualquer procedimento antes de saber o que estava acontecendo com a minha esposa. Já estava esperando há algum tempo quando um médico veio falar comigo. Ele agia com profissionalismo e confiança, mas, quando olhei em seus olhos, percebi que ele estava exausto. Ele me entregou um pequeno envelope pardo.
 — Senhor Carpenter, lamento muito.
 Não consegui formular uma resposta antes que o médico deixasse o quarto. Não havia nada a fazer a não ser investigar o conteúdo do envelope. Eu o abri com a mão que não estava ferida e despejei o conteúdo sobre a outra. Vi o relógio de pulso da Highlands University que havia mandado fazer para presentear Krickitt... E sua aliança de casamento.
 Quando lhe dei aquele anel, jurei protegê-la em tempos de necessidade e dificuldade. Definitivamente, esse era um momento de necessidade e dificuldade, mas eu me sentia impotente. Não havia nada que pudesse fazer para protegê-la.
 Meus pensamentos e emoções estavam bastante confusos dentro de mim. Eu sentia dor, e estava exausto, mas, acima de tudo, fiquei chateado por não saber como Krickitt estava. Mas, de repente, rasgando tudo mais que se passava pela minha cabeça, veio à ideia de que ela estava morta.
 Eu estava muito descrente para ficar triste. Não era por não estar disposto a acreditar que minha esposa estava morta; simplesmente não conseguia acreditar. Eu me sentia incapaz de aceitar o fato de que aqueles olhos azuis haviam se fechado para sempre, e que eu nunca voltaria a ver aquele sorriso radiante que ela abria para mim do outro lado da mesa do jantar.
Não conseguia acreditar que a mulher mais alegre e entusiasmada que conheci em toda minha vida fora arrancada de mim de forma tão selvagem. Meu cérebro simplesmente se recusava a processar a ideia de que, após dois meses de casamento, eu passava a ser viúvo. Viúvo.
 Algum tempo depois, uma enfermeira veio me examinar e me falar sobre o estado de Krickitt.
 — Fizemos tudo que era possível, mas a condição da sua esposa não melhorou. Ela está além da possibilidade de auxílio médico. — Ela explicou.
“Talvez ela esteja além da possibilidade de auxílio médico”, pensei. “Mas ainda posso pedir a Deus.”
 A enfermeira prosseguiu:
 — Mesmo assim, ela está resistindo melhor do que qualquer pessoa na mesma condição. Ela é forte, e está em excelente forma física. O médico requisitou um helicóptero para levá-la a um hospital em Albuquerque.
 A porta que, aparentemente, havia se fechado há alguns minutos havia, milagrosamente, voltado a ficar entreaberta.
 Naquele momento, eu não sabia, mas quando a equipe médica de transporte aéreo recebeu a ordem de levar a minha esposa para o hospital da Universidade do Novo México, em Albuquerque, a 210 quilômetros de distância, eles temeram, de acordo com sua experiência, que a viagem pudesse ser um esforço inútil. Levaria uma hora inteira até o helicóptero chegar a Gallup e, depois disso, mais uma até que pudessem levar a minha esposa até Albuquerque. Eles imaginavam que, por causa desse tempo todo, provavelmente seria tarde demais para Krickitt.
 Entretanto, por Deus, a equipe médica do hospital Rehoboth McKinley de Gallup, resolveu arriscar e tentar salvar a vida de Krickitt Carpenter. Quando a levaram para fora da sala de emergência, eu a vi pela primeira vez, desde que havia sido tirado da cena do acidente, horas atrás. Ela estava deitada em uma maca, cercada por membros da equipe médica, que estavam cuidando do que parecia ser uma dúzia de mangueiras intravenosas de soro e aparelhos de monitoramento. A cabeça e o rosto da minha esposa estavam tão inchados e machucados que eu mal conseguia reconhecê-la. Seus lábios e orelhas estavam roxos pelos hematomas, e o inchaço era tão grave que suas pálpebras nem se fechavam. Os olhos dela me encararam com uma expressão vazia, e seus braços se moviam a esmo (eram mais sinais de trauma sério na cabeça). Sua temperatura corporal era instável, e a equipe a colocou dentro de uma capa térmica para o corpo inteiro. Para mim, parecia uma bolsa usada para transportar cadáveres.
 Levantei da cama onde estava e agarrei as duas mãos de Krickitt. Elas estavam horrivelmente geladas.
 — Nós vamos sair dessa, Krick. — Disse para ela. Sorri, mas senti as lágrimas chegarem mesmo assim. — Não vá morrer e me deixar aqui! — Implorei, com a minha boca a poucos centímetros do seu rosto. Ela tinha uma máscara de oxigênio sobre o nariz e a boca. Consegui ouvi-la respirando, de forma fraca e rápida. — Estamos juntos para sempre, você se lembra? Ainda temos muita coisa pela frente!
 Quando começaram a empurrar a maca de Krickitt para o heliporto, percebi que eles não tinham planos de me deixar embarcar.
 — É preciso levar dois médicos e uma quantidade muito grande de equipamento para que sua esposa consiga sobreviver à viagem. Não há espaço para passageiros. — Foi o que alguém me explicou.
 Eu não era apenas um passageiro, era o marido dela. E também era um paciente do hospital, como repentinamente percebi, com minha própria cota de ferimentos sérios. Tentei convencer qualquer pessoa disposta a ouvir a mandar o helicóptero de volta para me buscar. Mas aquilo não iria acontecer. Alguém me disse que havia mais dois chamados ativos, e não haveria tempo para fazer outra viagem de ida e volta com duração de duas horas para me levar até Albuquerque. Enquanto assimilava aquelas palavras, observei minha esposa ser levada através dos corredores do hospital em direção ao helicóptero, que já a aguardava.
 — Aguente firme, Krickitt. Estou rezando por você. — Gritei, antes de começar a chorar enquanto observava minha esposa, o amor da minha vida, ser levada para dentro do helicóptero e instalada na aeronave. Fiquei ali, sem acreditar, enquanto o som rítmico do motor do helicóptero desaparecia na distância.
 Desde que cheguei ao hospital, tentei, repetidamente, entrar em contato com os pais de Krickitt em Phoenix e com os meus em Farmington, no Novo México. Mas, como era véspera do dia de Ação de Graças, não havia ninguém em casa. Sem opções, eu, finalmente, liguei para o número de telefone do apartamento onde Krickitt morava antes de nos casarmos e conversei com Lisa, sua ex-colega de quarto, que ainda morava ali com Megan, na Califórnia. Expliquei rapidamente a situação e, depois, pedi que ela tentasse entrar em contato com os pais de Krickitt, contar a eles sobre o acidente e aguardar por mais notícias.
 Então, liguei para o meu chefe, Rob Evers, diretor de atletismo na universidade. Eu lhe falei sobre a situação e pedi a ele que tentasse encontrar meus pais. Ele disse que faria aquilo imediatamente, e saiu em busca deles. Ele sabia que eu tinha um tio em Albuquerque cujo sobrenome era Morris, mas não sabia qual era seu primeiro nome, pois todos o chamavam pelo apelido de Corky. Assim, Rob ligou para a companhia telefônica e explicou que tinha uma emergência e que precisava entrar em contato com a família.
 — Nós geralmente não fazemos isso, senhor. Mas, por favor, aguarde
na linha.
 A atendente ligou para todos os assinantes de sobrenome Morris em Albuquerque até encontrar a pessoa certa.
 O tio Corky tinha o número de telefone do sócio do meu pai na empresa. Rob ligou para o homem que, após algum tempo, conseguiu entrar em contato com meu pai em seu telefone celular. Ele e a minha mãe estavam passando o dia de Ação de Graças com meu irmão Kelly, em Roswell, no Novo México. Meu pai me telefonou imediatamente. Disse a ele que o médico havia me entregado a aliança de casamento de Krickitt, e havia dito “Senhor Carpenter, lamento muito”, e que estava frustrado por não saber o que estava acontecendo, mas ligaria para ele com notícias assim que soubesse de algo novo.
 Deitado na cama do hospital, depois que o helicóptero levou Krickitt embora, ainda não acreditava que minha esposa, com quem havia me casado há apenas dois meses, pudesse morrer. Ela era tão cheia de vida, tão alegre, e totalmente focada em ser a mulher que Deus queria que ela fosse. Naquela manhã, ela voltara a escrever em seu diário. Quando li as anotações daquele dia, fiquei impressionado pelo que ela escreveu: “Deus, ajude-nos a viver segundo Seus valores. Por favor, abra o meu coração e o de Kimmer para que sempre façamos as coisas de Seu agrado”. Mal sabíamos, naquela noite de Ação de Graças, a maneira como aquelas orações seriam respondidas. 
 Mesmo assim, naquela noite, meus pensamentos não estavam focados no futuro. Estavam centrados nos eventos horríveis do presente. Voltei a telefonar para o meu pai. Por entre meu choro desesperado, consegui pronunciar algumas palavras.
 — Eles levaram Krickitt de helicóptero para Albuquerque, mas não me deixaram ir com ela. Você tem que vir até onde estou e me tirar daqui. Me leve até onde ela está.
 E desabei em lágrimas mais uma vez, dominado pelas emoções que tomavam conta de mim. Tinha que ver minha esposa mais uma vez, antes que ela morresse.

¹A distância entre Las Vegas, no Novo México, e Phoenix, no Arizona, de acordo com o percurso descrito pelo personagem Kim, é se aproximadamente 950 quilômetros. (N.T)




Postado por Adm¹









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