23/12/2015

Capítulo TRÊS

Um milagre nos dias atuais

 Enquanto meu pai estava procurando por uma maneira de me levar para Albuquerque, os pais de Krickitt estavam chegando em casa, onde não encontrariam ninguém esperando. Gus e Mary haviam feito tudo que podiam para garantir que nosso primeiro dia de Ação de Graças como casal fosse especial. Como não conseguiríamos visitá-los no Natal, por causa da minha escala de trabalho, eles decidiram acrescentar um toque das festas de fim de ano para alegrar a casa, com luzes de Natal, tanto do lado de dentro quanto fora da casa. Eles sabiam que chegaríamos tarde da noite, então haviam saído para assistir a uma partida de basquete.
 Os pais de Krickitt ainda não sabiam do ocorrido quando chegaram em casa, mas Mary sabia que havia algo errado, mesmo antes de entrarem. Já passava da meia-noite, e, mesmo assim, quando estacionaram em frente à casa, o carro branco não estava lá para anunciar nossa chegada. Eles logo ouviram a notícia que mudaria sua vida: sua amada filha e o marido haviam sofrido um grave acidente, e o prognóstico não era bom.
 Estava esperando que meu pai me telefonasse para explicar o plano, mas foi Mary quem me ligou. Como Krickitt estava a caminho de Albuquerque, eu não sabia informar a Mary como ela estava, pois eu mesmo não sabia. Mas me lembro de ter dito a ela o seguinte: “Estou sentindo muita dor, e não consigo viver sem ela”. Mary disse que ligaria para o hospital e verificaria o estado de Krickitt, e que ela e o marido pegariam o primeiro voo de Phoenix para Albuquerque¹ no dia seguinte.
 Talvez tenham se passado dois minutos depois que conversei com Mary, ou talvez duas horas. Meu telefone tocou de novo. Eu atendi e ouvi a voz do meu pai.
 — Filho, como você está?
 — Quero ver Krickitt. É assim que estou. Não consigo respirar direito e minhas costas estão me matando. Tenho que vê-la, pai.
 As lágrimas estavam se acumulando no fundo dos meus olhos, mas eu tinha que mantê-las sob controle para conseguir prosseguir com a conversa. Esperava com todas as minhas forças que meu pai pudesse me levar a Albuquerque para ver minha esposa.
 Ele podia.
 — Escute, meu filho. — Ele disse, em uma voz firme e controlada, que me deu força e trouxe conforto. — Vou deixar sua mãe no hospital em Albuquerque. Depois, irei até Grants para pegar você no posto de gasolina que fica logo na entrada da cidade, e vou levá-lo para ver Krickitt.
 Meu pai fez com que parecesse que ele teria apenas que atravessar a cidade rapidamente. Mas a verdade era que ele e minha mãe haviam acabado de percorrer 650 quilômetros através do Novo México para chegar até a casa do meu irmão. Agora ele iria dirigir mais 300 quilômetros de Roswell até Albuquerque, e de lá, mais 100 até Grants, o ponto médio entre Albuquerque e Gallup. Para completar a situação, uma tempestade de neve havia caído durante a noite, e algumas partes da estrada estavam cobertas por uma sólida camada de gelo.
 — O problema, pai, é que acho que não vou conseguir sair daqui a menos que você venha e assine alguns documentos para que eu tenha alta. Eles me internaram no setor de emergência, e ainda não fizeram muito em relação aos meus ferimentos porque estavam ocupados demais com Krickitt. Estou num estado horrível, pai.
 — Vou mandar Porky para tirar você daí.
 Quando ouvi aquilo, sabia que estava em boas mãos. Porky Abeda era um dos melhores amigos do meu pai, um homem enorme, que já havia sido o chefe dos bombeiros de Gallup. Ele era bem conhecido na cidade e também bastante persuasivo. Assim, eu sabia que, se alguém pudesse me tirar do hospital, esse alguém seria Porky.
 Compreensivelmente, os membros da equipe médica não concordaram com a minha decisão de sair. Uma enfermeira tentou argumentar comigo.
 — Ainda não pudemos examiná-lo em busca de lesões internas. Não é aconselhável sair agora.
 — Tudo que quero é estar junto da minha esposa.
 — Quando você chegar a Albuquerque, pode ser impossível reparar os danos causados ao seu nariz e à sua orelha. E não sabemos nem mesmo que tipo de sangramento interno você pode ter neste momento. — Ela fez uma pausa e me deu um olhar muito sério. — Se você sair do hospital agora, você pode morrer.
 — Eu não me importo. Se Krickitt morrer, então não tenho qualquer razão para viver.
 Se um paciente deseja receber alta, contrariando a opinião dos médicos, o hospital só pode deixar que ele saia se um parente vier buscá-lo. Porky e eu não nos parecemos o bastante para passar por parentes. Ele é um descendente puro-sangue da tribo dos navajos, e eu sou branco. Não sei o que ele disse à equipe do hospital, mas funcionou.
 Depois que os documentos foram assinados, Porky enrolou um cobertor ao meu redor e me colocou no banco traseiro do seu carro antes de sair pela estrada em direção a Grants. Experimentei várias posições no banco traseiro, tentando encontrar uma que me permitisse respirar com menos dor. A cada vez que eu inspirava, parecia que meu peito estava pegando fogo. Olhando pela janela, observei as luzes conforme corríamos pela rodovia interestadual. Finalmente vi o imenso letreiro do posto de gasolina em Grants, e estacionamos para que pudéssemos encontrar meu pai.
 Ele estava andando de um lado para o outro na calçada. Havia conseguido chegar de Roswell na metade do tempo normal, embora a estrada estivesse coberta de gelo e outros dois acidentes tivessem acontecido entre Albuquerque e Gallup naquela noite, as mesmas batidas que haviam requisitado o helicóptero que poderia ter me levado até Albuquerque e até
Krickitt. Porky desceu do carro, e vi que meu pai veio até ele.
 — Onde está Kim? — Ouvi meu pai perguntar, embora aquela pergunta estivesse abafada pelo som dos motores das inúmeras carretas ao nosso redor. Ele olhou para o carro, obviamente esperando que eu saísse e embarcasse no carro dele para que pudéssemos ir para Albuquerque.
 — Danny, Kim não está nada bem. — Porky disse, com a voz grave.  — Ele não consegue sair sozinho de dentro do carro.
 Quando Porky abriu a porta, o vento gelado me atingiu em cheio, mesmo com o cobertor enrolado ao meu redor. Os olhos do meu pai se encontraram com os meus antes que ele pudesse olhar para o meu rosto cortado, a orelha rasgada e o nariz mutilado. Ele estremeceu, e eu sabia que não era por causa do frio. 
 Os dois me levaram para o carro do meu pai, e partimos para Albuquerque, em um trajeto que, geralmente, não demoraria mais do que uma hora para ser percorrido. Quando pegamos a via de acesso para a rodovia interestadual, meu pai estava dirigindo a 170 quilômetros por hora.
 Pela terceira vez em 12 horas, tentei encontrar uma posição confortável no banco de um carro. Era cada vez mais difícil respirar, e não conseguia inalar ar o suficiente. Tomar fôlego não era mais apenas doloroso, era impossível.
 Disparamos pela rodovia interestadual, percorrendo quase três quilômetros por minuto, passando por várias pancadas de chuva gelada. Houve momentos em que achei que não conseguiria mais respirar. As costelas quebradas haviam perfurado meu pulmão, e eu sentia como se estivesse morrendo aos poucos.
 Não houve muita conversa durante aquela viagem. De vez em quando, meu pai perguntava:
 — Você está bem, filho?
 A resposta na minha cabeça era sempre a mesma. “Não, não estou bem. Minha esposa está morrendo, e eu posso estar morrendo também. Estamos casados há apenas algumas semanas, e tudo está se acabando em questão de horas... Se já não houver acabado.” Mas tudo que conseguia dizer era:
 — Apenas me leve para Albuquerque, pai.
De tempos em tempos, meu pai telefonava para a minha mãe no hospital para ver como as coisas estavam. Depois de cada telefonema, eu perguntava se havia alguma novidade.
 — Ainda estão trabalhando nela. — Era a única resposta que eu recebia. Fui saber depois de um bom tempo que, quando meu pai ainda estava em Roswell, ele havia telefonado para o hospital e foi informado de que Krickitt provavelmente não sobreviveria àquela noite.
 Não tinha ilusões de que meu pai estava me dizendo tudo que sabia a respeito de Krickitt. Eu a havia visto na maca em Gallup, havia ouvido os médicos e as enfermeiras conversando na sala de emergência. Eles haviam me trazido sua aliança de casamento, e agiam como se tudo já estivesse acabado. Para mim, parecia que haviam desistido da minha esposa ainda antes de a terem levado para o helicóptero.
 Mesmo ao nos aproximarmos de Albuquerque, eu acreditava, no fundo do meu coração, que Krickitt pudesse estar morta. Quando disse à enfermeira que, se Krickitt morresse, não teria mais motivos para viver, eu estava sendo completamente honesto a respeito daquilo. Eu estava deitado no banco, pensando: “Posso acabar com essa agonia aqui e agora. Tudo que tenho que fazer é levantar a mão, abrir a maçaneta da porta e rolar para fora. A mais de 170 quilômetros por hora, o resultado só pode ser um.” Mas assim que aquele pensamento me sobreveio, senti uma presença forte e pacífica no carro, que só poderia ser divina. Uma voz disse: “Espere um minuto”. Não sei se cheguei realmente a ouvir aquelas palavras ou se apenas as senti, mas elas estavam lá, e me salvaram da decisão mais horrível e egoísta que eu poderia ter tomado. Não sei se toquei a maçaneta da porta com a mão, mas sei que nunca mais considerei a possibilidade de tirar minha própria vida. Até hoje me envergonho daqueles pensamentos quando olho para nossos dois filhos. Tirar minha própria vida teria impedido que eles pudessem desfrutar das suas.
 Por fim, a estrada se inclinou para cima, e vimos à cidade de Albuquerque à nossa frente. Eu me levantei no assento e olhei para a malha urbana. E imaginei onde minha esposa estaria, em meio àquele imenso mar de luzes.
 Quando estávamos a cinco quarteirões do hospital da Universidade do Novo México, meu pai telefonou para o pronto-socorro e disse-lhes que se preparassem para me receber quando chegássemos. Já fazia 16 horas desde que o acidente havia ocorrido, e eu ainda não havia recebido muito mais do que os primeiros socorros. Quando viramos a última esquina e estacionamos na entrada de emergência, havia uma multidão à espera. Médicos, enfermeiras... E a minha mãe. Achei que a presença dela ali fosse um mau sinal.
 Alguém abriu a porta do carro, e tentei sair por meus próprios meios. Minha mãe olhou para mim, cheia de preocupação, e observei enquanto sua expressão se transformou primeiramente em choque e, em seguida, em horror, ao ver meu rosto desfigurado. Depois, ela desapareceu do meu campo de visão, que estava tomado por técnicos de enfermagem e médicos que se aproximavam para me ajudar a sair do carro. Eles estavam conversando comigo, e também entre si, de forma tão rápida que eu não sabia o que estava acontecendo.
 — Onde está Krickitt? Onde está a minha esposa? — Gritei por cima do barulho, com toda a força que consegui reunir. Parecia que ninguém estava me escutando. — Por favor, alguém me diga o que aconteceu com a minha esposa!
 De repente, uma voz familiar se destacou por entre o caos.
 — Abram caminho! Saiam da minha frente!
 Era Mike Kloeppel, meu padrinho de casamento, outro homem imenso que veio para me ajudar, assim como Porky Abeda havia feito. Mike sabia que a minha prioridade era saber sobre o estado de Krickitt, e não me entregar aos cuidados da equipe de emergência. Logo percebi que ele estava abrindo caminho por entre as pessoas para me falar sobre Krickitt, afastando enfermeiros e outros membros da equipe médica enquanto avançava. Vi alguém agarrá-lo pela camisa, mas ele se desvencilhou facilmente.
 Quando Mike se aproximou o bastante para ter certeza de que eu poderia ouvi-lo, ele me perguntou:
 — Como estão as coisas, meu chapa?
 Ignorando aquela pergunta, e temendo ouvir a resposta que ele teria para me dar, perguntei: 
 — Mike, ela ainda está viva?
 Mike me olhou com um suspiro e disse:
 — Ela ainda está lutando, Kim. Os médicos ainda estão trabalhando com ela na UTI.
 Senti uma onda de alívio tomar conta de mim, e enviei aos céus uma prece silenciosa de agradecimento naquela manhã do dia de Ação de Graças.
 Depois que Mike saiu do caminho, fui levado às pressas para a sala de emergência. Quando os médicos deram uma boa olhada nos meus ferimentos, eles não conseguiram acreditar que eu havia recebido alta do hospital em Gallup naquele estado. Não consegui reunir forças para explicar que eu mesmo havia pedido alta, contrariando a decisão dos médicos.
 Os mesmos médicos que haviam tratado Krickitt quando ela chegou vieram me examinar, e começaram a fazer requerimentos por sondas intravenosas, raios-X e tomografias computadorizadas.
 As enfermeiras corriam para todos os lados para providenciar o que os médicos pediam. Eu soube que, devido ao inchaço que eles haviam descoberto atrás da minha orelha ferida, eu poderia estar com inchaço cerebral e sofrer danos permanentes.
 Um dos médicos me perguntou onde eu sentia dores.
 — Nas costas. Não consigo me mexer sem sentir dores pelo corpo inteiro.
 Eles me viraram de bruços para me examinar. Ouvi alguém gritar:
 — Olhem só isso!
 E eles olharam. Aparentemente, quando o carro havia deslizado de cabeça para baixo no asfalto, alguns estilhaços de vidro do teto solar haviam se enfiado na pele das minhas costas. Alguns dos estilhaços chegavam a ter quatro centímetros de comprimento. 
 O médico fechou uma cortina ao meu redor para tentar me proteger da raiva que ele sentia, mas ainda consegui ouvi-lo perguntando a alguém que estava nas proximidades:
 — Alguém chegou a atender este homem em Gallup?
 Claro, ele não conhecia a história inteira. Fiquei mais do que feliz por poder permitir à equipe do hospital de Gallup que dedicasse sua atenção exclusivamente à minha esposa, e aquilo a mantivera viva.
 Mais tarde, soube que os enfermeiros que estavam no voo que trouxera Krickitt a Albuquerque confirmaram a qualidade dos cuidados que ela havia recebido em Gallup, escrevendo o seguinte: “O maior mérito pela sua recuperação se deve aos paramédicos de Gallup no local do acidente e aos doutores Kennedy e Beamsley no hospital Rehoboth. Eles fizeram tudo da maneira correta. Nós simplesmente voamos até aqui o mais rápido que
conseguimos”. De maneira nenhuma a equipe do hospital de Gallup poderia ser culpada pelo meu estado, pois eu havia exigido que me dessem alta na condição em que estava.
 Enquanto os médicos me atendiam, eu insistia em perguntar à minha mãe sobre o estado de Krickitt. Durante aqueles minutos de pura agonia física, a única coisa que eu queria era que minha mãe aliviasse minha agonia emocional e mental, dizendo que minha esposa ficaria bem. Mas ela não me disse nada daquilo. Ela não conseguia. Ela não deixou eu saber que ninguém da equipe do helicóptero esperava que ela pudesse sobreviver, O médico que a internou em Albuquerque disse que ela tinha menos de 1% de chance de sobreviver. A única esperança de Krickitt era um milagre.
 Pouco tempo depois, meu irmão gêmeo, Kirk, chegou ao hospital, vindo de Farmington, nossa cidade natal no noroeste do Novo México. Ele e sua esposa só ficaram sabendo do acidente depois da meia-noite, mas vieram assim que foi possível. 
 — Como você está, Kimbo? — Ele perguntou, esforçando-se para sorrir.
 — Já estive melhor. Preciso ver Krickitt. — Respondi.
 — Você vai vê-la logo. Mas vai ter que esperar até que possa entrar na sala onde ela está.
 Enquanto isso, a equipe da sala de emergência conseguiu colocar meu nariz de volta no lugar, engessaram minha mão fraturada, trataram das minhas costelas, me deram um sedativo e me prepararam para que pudesse ser internado no hospital. Quando eles já tinham terminado de me tratar, eu disse a eles que queria ver a minha esposa assim que fosse possível.
 — Quando for internado, você não vai poder sair para ver sua esposa. — Alguém explicou.
 — Então não vou aceitar ser internado.
 Compreensivelmente, eles tentaram argumentar comigo, mas não lhes dei ouvidos. Eu me recusei a ser internado antes de poder ver minha esposa.
 Eles finalmente concordaram em me mandar para a enfermaria para ficar em observação, e disseram que, se eu mostrasse sinais estáveis, permitiriam que eu visitasse Krickitt. Ela ainda estava na UTI, e me informaram que eu poderia ser levado até ela em uma cadeira de rodas. Eles me avisaram sobre o que eu iria ver. Fui informado de que devia me preparar para um forte choque quando visse a extensão dos ferimentos que ela havia sofrido e o enorme número de aparelhos no quarto. Mas nada daquilo importava para mim. Eu simplesmente estava feliz por ela estar viva.
 Quando chegamos à porta da UTI, pedi ao técnico de enfermagem que estava empurrando a minha cadeira de rodas que parasse.
 — Se houver alguma chance de que ela possa me ver, quero que ela perceba que estou caminhando. Vou até ela com minhas próprias pernas. — Expliquei ao rapaz. Fiz força para me levantar da cadeira de rodas e atravessei a porta a passos lentos. 
 Fiquei agradecido ao perceber que o auxiliar estava logo atrás de mim com a cadeira de rodas enquanto eu andava, porque, assim que consegui ver Krickitt, caí para trás. Era difícil de acreditar, mas ela não precisou passar por cirurgias; entretanto, devido às lesões cerebrais que havia sofrido, o corpo dela estava ligado a todo tipo de aparelho. Seu corpo estava preso à mesa, e ela se mexia tentando se soltar das correias que a prendiam, seu corpo estava agitado pelas convulsões. Seus olhos e lábios ainda tinham uma coloração arroxeada e escura. Todo o seu corpo estava inchado como um balão, e sua cabeça estava do tamanho de uma bola de basquete. Pude ver que havia tubos que lhe entravam pela boca e pelo nariz, e outros que desapareciam por baixo dos lençóis; as mangueiras das bolsas de soro estavam conectadas a agulhas enfiadas nos dois braços dela, e também em um dos pés. Havia uma sonda instalada em sua cabeça para medir a pressão entre o cérebro e o crânio, com fios e cabos que conectavam o aparelho a alguns dos monitores que, literalmente, enchiam a sala.
 Ela estava sedada e não tinha condições de falar, por causa de todos aqueles tubos e mangueiras, mas eu estava desesperado para que ela me enviasse um sinal, ou que tentasse se comunicar comigo de alguma maneira.
Voltei a me levantar da cadeira de rodas e segurei na mão da minha esposa.
 — Sou eu, querida! — Eu disse, com a voz baixa. — Se você consegue me ouvir, aperte a minha mão.
 Devido aos vários outros ferimentos, bem mais urgentes, ainda não sabíamos que a mão pálida e fria que eu estava segurando com tanto cuidado estava quebrada. Não percebi qualquer reação em seu rosto depois de ter pronunciado aquelas palavras... Mas ela apertou a minha mão.
 Uma fagulha de esperança se acendeu dentro de mim. Krickitt ainda estava ali. Em algum lugar, debaixo de todos aqueles fios e tubos, minha esposa ainda vivia. Foi o primeiro sinal de vida que conseguimos detectar sem que fosse preciso usar um aparelho. Embora, aparentemente, fosse uma coisa pequena, eu me senti tomado por uma onda de alegria.
 Os médicos não ficaram tão animados quanto eu com a reação de Krickitt. Na opinião deles, era muito mais provável que ela viesse a morrer do que se recuperar.
 Não demorou muito até que os pais de Krickitt e seu irmão Jamey chegassem, vindos de Phoenix. Como muitos outros, eles passaram as horas agonizantes da noite anterior chorando e rezando por um milagre. Entretanto, quando chegaram, Gus e Mary Pappas estavam incrivelmente calmos, mesmo depois de verem sua filha coberta por tubos e fios, com o rosto distorcido e quase irreconhecível.
 Finalmente, meu irmão Kelly chegou. Ele foi sensato o bastante para sair de Roswell apenas depois do nascer do sol, depois que o gelo que cobria as estradas já houvesse se derretido. O círculo familiar estava completo.
 Como geralmente acontece em casos como esse, os horários de visita na área de recuperação da UTI eram bastante limitados. Apenas membros da família poderiam entrar na unidade, e tinham permissão para ficar ali por apenas 30 minutos. Mesmo assim, os médicos nos deixavam ir e vir sempre que quiséssemos. Se qualquer um de nós estivesse com a cabeça tranquila para pensar no por que, nós teríamos percebido que algo não estava certo. O que não sabíamos era que os médicos de Krickitt haviam informado à equipe de enfermagem que deixassem qualquer pessoa entrar, a qualquer hora, pois ela morreria dentro de poucas horas.
 Os médicos passaram um bom tempo nos explicando à situação de Krickitt. Fomos informados de que havia dois problemas principais, e um deles tornava o outro ainda mais grave. A primeira situação, e também a mais perigosa, era o problema do edema no cérebro dela. Aquele inchaço impedia que o sangue fluísse normalmente até as células do cérebro de Krickitt, e elas necessitavam com urgência de que os nutrientes e oxigênio pudessem chegar.
O segundo problema era sua pressão arterial, que estava perigosamente baixa. Mesmo que não houvesse outras complicações, a baixa pressão arterial havia reduzido o fluxo de sangue para os órgãos, especialmente para o cérebro, o que viria a resultar em danos devido à falta de oxigenação. Em resumo, o edema e a baixa pressão representavam uma complicação dupla. Não foi preciso que ninguém explicasse que vasos sanguíneos constritos, associados a um baixo fluxo de sangue, eram uma combinação mortal.
 Mas, com o tempo, como Krickitt estava resistindo, os médicos começaram a pensar que ela poderia sobreviver, apesar de todas as evidências contrárias. Anteriormente, no período da manhã, percebemos um sinal de que ela não ficaria paraplégica quando conseguiu mexer os dedos das mãos e dos pés. Mesmo assim, de acordo com os médicos, a cada minuto que o cérebro recebia uma quantidade insuficiente de oxigênio, as chances de que ela pudesse ter uma sequela cerebral permanente aumentavam. A pressão intracraniana havia diminuído um pouco, mas voltara a aumentar sem qualquer aviso. Eles estimaram que seu organismo precisaria de 24 a 48 horas para reverter o edema e restaurar completamente a oxigenação do cérebro. Quando aquilo acontecesse, se ela ainda estivesse viva, minha mulher sobreviveria, mas em um estado vegetativo permanente.
 Tivemos que aprender o que significavam as informações apresentadas em cada um dos aparelhos no quarto, e passamos o resto do dia observando os números subirem e descerem. Embora soubéssemos o significado daquelas informações, não tínhamos qualquer condição de ajudar Krickitt. Os números em uma tela eram meramente os indicadores da vida e da morte, e não havia absolutamente nada que qualquer um de nós pudesse fazer a não ser sentar e observá-los piscando, esperando que começassem a se mover na direção certa. 
 Por causa de todo o estresse e drama das últimas 24 horas, nós demoramos um pouco para lembrar que não estávamos completamente impotentes, afinal, ainda podíamos rezar. Todos ali sabiam que orações nem sempre têm o resultado que esperamos, mas não havíamos sequer tentado ainda.
 Jamey, Mary e Gus, Curtis e WendyJones, alguns outros amigos e eu fomos até a capela do hospital. Jamey fez uma oração de improviso e nós rezamos para que a pressão no cérebro dela diminuísse. Rezamos e esperamos por um milagre.
 Havia outras pessoas orando por Krickitt, também, como sua amiga Lisa, seus antigos colegas de faculdade e Gretchen, mulher de Jamey, que não pudera vir ao hospital porque estava grávida.
 Aquelas pessoas ligaram para outras, que ligaram para outras mais. Ao final do dia, havia pessoas rezando por Krickitt até nos cantos mais distantes da Rússia.
 Quando voltamos para a UTI, meus olhos buscaram automaticamente os monitores que passamos tanto tempo observando. Os números estavam melhores. A pressão intracraniana de Krickitt estava diminuindo, e continuava a diminuir conforme o tempo passava. As enfermeiras entravam e saíam da sala de tempos em tempos, e finalmente uma das enfermeiras chamou um médico, porque estava preocupada com a possibilidade de que a sonda houvesse saído do lugar. Ela não achava que os números nos monitores podiam estar certos. O médico verificou a sonda, mas ela estava em ordem. Mesmo assim, embora a pressão no cérebro de Krickitt continuasse a diminuir, sua pressão arterial continuava gravemente baixa.
 As pessoas chegavam e telefonavam a todo o momento, querendo saber como Krickitt estava. Pouco tempo depois de voltarmos da capela, o pastor, Fred Maldonado, chegou e, então, voltamos à capela para rezar. Ficamos nesse ir e vir de orações, pedindo que a pressão intracraniana diminuísse e que a pressão sanguínea aumentasse.
 Quando voltamos para o quarto de Krickitt, percebemos que sua pressão arterial estava aumentando gradualmente. Quando uma enfermeira entrou e verificou a situação, ela ficou de queixo caído. Olhou para mim e apontou para o monitor de pressão.
 — Olhe para os valores da pressão. — Ela disse, finalmente. Estávamos olhando. Era impossível tirar os olhos do mostrador. Estava voltando ao patamar normal.
 Conforme as horas passavam, Krickitt, gradualmente, ficou mais alerta. Seus sinais vitais estavam se aproximando de níveis considerados normais, e logo ficou claro que ela conseguiria recobrar pelo menos algumas de suas funções básicas.
 No decorrer dos dias seguintes, eu me esforcei para descansar e recuperar um pouco da minha força. Ainda não conseguia ficar em pé por muito tempo devido aos ferimentos nas costas e nas costelas, mas, mesmo assim, várias vezes durante o dia, eu ia vagarosamente até o quarto de Krickitt. Ela continuou a melhorar e, na segunda-feira após o dia de Ação de Graças, cinco dias após o acidente, foi transferida da UTI para um quarto normal, e não precisou mais ficar ligada aos aparelhos de suporte à vida.
 Embora Krickitt estivesse razoavelmente alerta, em algumas raras ocasiões, ela ainda estava tecnicamente em coma. Entre as muitas coisas que aprendi naqueles dias, uma delas foi que havia 15 níveis diferentes de coma na escala² que usavam para classificar o estado de Krickitt, e os níveis menos sérios incluíam estados em que o paciente poderia até mesmo estar alerta e ser capaz de fazer alguns movimentos. Aquele era o caso de Krickitt. Ela passava a maior parte do dia dormindo, mas como os tubos de respiração e alimentação haviam sido retirados de sua boca, eu sabia que havia uma pequena possibilidade de que ela conseguisse falar. Estava desesperado para ouvir o som da voz dela desde que gritara o nome da minha esposa nos segundos que sucederam o acidente. Houve muitas ocasiões em que pensei que nunca mais voltaria a ouvir a voz dela. Cheguei até mesmo a sonhar que ela estava conversando comigo. Eu queria demais poder ouvir aquela voz novamente.
 Com a permissão do médico, eu colocava pequenos pedaços de gelo em sua boca. Quando eu tocava os lábios dela com um dos pedaços, ela o ingeria.
Os lábios de Krickitt já não estavam tão arroxeados. Eles estavam bastante pálidos e ressecados, mas eu conseguia sentir seu calor e o hálito dela em minha pele, conforme ela inspirava e expirava.
 Depois de dar mais alguns pedaços de gelo a ela, coloquei meu rosto a poucos centímetros do dela.
 — Eu amo você, Krickitt  — eu disse, delicadamente.
 — Eu também amo você.
Não conseguia acreditar! Minha esposa não havia apenas falado, mas ela havia dito às palavras que eu mais desejava ouvir. A minha Krickitt havia retornado. O simples fato de ouvir aquelas palavras fez com que eu soubesse que tudo ficaria bem. 


¹* trajeto de Phoenix, no Arizona, até Albuquerque, no Novo México, por via aérea, tem cerca de 520 quilômetros de distância. (N. T.) 

²*O narrador refere-se à Escala de coma de Glasgow, utilizada mundialmente. (N. T.) 

Postado por Adm¹

Nenhum comentário:

Postar um comentário