Uma lição em meio à tragédia
Os médicos pensavam que a declaração de amor que Krickitt me fizera fora apenas uma reação baseada em seus reflexos. Eles alegavam que ela, provavelmente, não entendia o que qualquer um de nós estava dizendo; seu cérebro sabia apenas que “eu também amo você” era a resposta padrão para “Eu amo você”. De acordo com a perspectiva médica, eu sabia que aquilo era verdade. Mas, para um homem que estava desesperado para recuperar sua esposa, aquelas palavras me davam esperança. Elas eram mais um passo no caminho de volta para a nossa vida, embora ainda não houvesse como saber se ela conseguiria se recuperar completamente.
Nos raros momentos em que os olhos de Krickitt se abriam, eles ficavam imóveis, como os olhos de uma boneca. Ela olhava para as coisas sem dar qualquer sinal de que as reconhecia, e era óbvio que ela não fazia ideia do que estava acontecendo. Uma solução de curto prazo para resolver esse problema acabou se mostrando bem simples. Depois de nos perguntarmos
durante algum tempo a respeito daquela falta de concentração, seu pai repentinamente se lembrou de que ela provavelmente não estava enxergando bem. Suas lentes de contato foram removidas depois do acidente, e ninguém tivera a ideia de colocar-lhe os óculos no rosto. Quando fizemos aquilo, percebemos uma diferença imediata. Ela ficou muito mais consciente em relação aos seus arredores durante os momentos em que estava desperta. A primeira coisa em que prestou atenção mais demoradamente foi em um prato de gelatina que estava do outro lado do quarto, que fez com que ela ficasse mais animada do que estava até então. Fiquei muito feliz quando ela começou a se concentrar mais em mim, enquanto falava com ela. Foi uma pequena vitória que nos levou para mais perto do dia em que eu teria a minha Krickitt de volta.
Krickitt logo teve forças para se sentar na cama, em seguida, para ficar em pé e depois dar alguns passos vacilantes pelo quarto e de volta para a cama, ladeada por mim e por um dos técnicos de enfermagem. Entretanto, mesmo com aquela ajuda, ela não foi capaz de levantar seus pés do chão. Seu pé direito se arrastava, e seu pulso estava contorcido. Ficou óbvio que ela havia sofrido algum tipo de sequela neurológica. Era muito difícil ter que observar uma exginasta tão talentosa esforçando-se tanto para conseguir apenas colocar um pé à frente do outro. Entretanto, poder se mover era um sinal de que ela provavelmente recuperaria bastante de seu equilíbrio e coordenação motora para que pudesse voltar a andar sozinha no futuro. Ela sabia como andar, mas ainda não estava forte o bastante para fazer aquilo.
Enquanto Krickitt dava seus primeiros passos com bastante dificuldade, eu a estimulava a continuar. Quando eu falava, ela olhava para mim.
— Eu amo você, Krickitt. — Eu dizia, enquanto olhava em seus olhos.
— Eu amo você também. — Ela dizia várias vezes, mas sem qualquer inflexão vocal ou expressão facial. Eu esperava poder ver ou ouvir a minha velha Krickitt, mas ela ainda não estava lá.
Não demorou até que ela estivesse em condições de comer pudim e outros alimentos moles. Como ela não tinha condições de se alimentar sozinha naquele ponto, eu a alimentava enquanto ela estava sentada na cama. Às vezes ela olhava para mim ou para a comida, mas, na maior parte do tempo, ela simplesmente olhava para a parede em frente.
O passo seguinte para Krickitt seria um programa de reabilitação. Os médicos vinham discutindo as opções de lugares onde poderíamos levá-la para dar início ao longo processo de trazer seu corpo e sua mente de volta para o estado em que estavam antes do acidente, ou, pelo menos, o mais próximo possível. Fazer com que pessoas com lesões cerebrais recuperem todo o seu potencial é um processo intenso, altamente especializado, e caro, e os médicos queriam ter certeza de que Krickitt seria enviada para o melhor lugar que lidasse com pessoas em sua condição. A boa notícia era que um dos melhores locais possíveis, o Instituto Neurológico Barrow, ficava no hospital St. Joseph, em Phoenix. Como os pais de Krickitt moravam em Phoenix, aquela seria uma excelente escolha. Mas essa boa notícia acabou manchada por um possível obstáculo. Fomos informados de que o nosso plano de saúde provavelmente não permitiria que Krickitt fosse retirada do Novo México para fazer seu programa de reabilitação¹.
Como qualquer marido, fiquei indignado ao saber que a minha esposa não poderia receber o melhor tratamento disponível devido ao que eu considerava uma cláusula ridícula no contrato do plano de saúde.
— Tudo bem. Eles então podem pagar as despesas para que eu e meus pais nos mudemos para Albuquerque e depois podem pagar nossos aluguéis enquanto estivermos morando aqui.
A assistente social que cuidou do caso, por outro lado, deve ter sido bem mais diplomática com a empresa do plano de saúde, porque, apesar da possibilidade ser ínfima, eles rapidamente liberaram os documentos necessários, permitindo que Krickitt fosse levada para fora do estado.
Infelizmente, nós logo descobrimos que não poderíamos levar Krickitt para o programa de reabilitação em Barrow. Em vez disso, os preparativos foram feitos para que ela fosse admitida em um programa de reabilitação para pacientes que haviam sofrido traumas na cabeça chamado Reabilitação Sem Muros, na cidade de Mesa, no Arizona. Alguns médicos que aviam trabalhado em Barrow haviam criado aquele programa, e, assim, sabíamos que seria uma boa escolha, embora não fosse exatamente aquilo pelo qual havíamos esperado tanto. Mesmo assim, dez dias depois do acidente, embarquei em um aviãoambulância com destino a Mesa, com a minha esposa e dois médicos.
Quando chegamos lá, o motorista da ambulância, que veio nos receber no desembarque, perguntou por que havíamos pousado ali, já que ficava à uma hora de distância do hospital. Ele explicou que recebeu instruções para nos levar a Barrow, em Phoenix. Nós explicamos que o pouso foi realizado em Mesa porque iríamos seguir para o centro Reabilitação Sem Muros. Depois de diversos telefonemas, finalmente descobrimos que, enquanto estávamos no ar, alguém percebeu que o centro Reabilitação Sem Muros não era um lugar adequado para Krickitt, porque era uma clínica ambulatorial, e Krickitt ainda precisava ficar internada por mais algum tempo. Quando essa questão foi descoberta, a Reabilitação Sem Muros entrou em contato com Barrow e explicou que Krickitt já estava a caminho do Arizona, e que precisava de cuidados mais complexos e especializados. A equipe de Barrow compreendeu a situação e aceitou seu caso imediatamente.
Chegamos ao Instituto Neurológico Barrow no fim daquela tarde, e logo fomos recebidos pelo neurologista-chefe. Havíamos trazido todos os tipos de raios-X, tomografias computadorizadas e outros relatórios conosco, mas o médico explicou que eles fariam seus próprios exames, que iriam começar imediatamente.
Depois que Krickitt passou por uma nova bateria de exames, nós a instalamos em seu quarto. Não demorou muito até que outro médico viesse e se apresentasse. Ele era um dos membros da equipe do Dr. Singh. O Dr. Singh seria o médico responsável por Krickitt, como explicou o médico associado, e viria examiná-la bem cedo na manhã da próxima segunda-feira. Como estávamos em uma sexta-feira, teríamos o fim de semana todo para nos acostumarmos com aquele ambiente antes que Krickitt começasse sua terapia, dali a alguns dias. Embora eu nunca pudesse imaginar que estaria em um centro de reabilitação depois de apenas dois meses de casado, tinha um bom pressentimento a respeito daquele lugar.
Barrow era um hospital especializado, mas os quartos eram como os de qualquer outro: móveis simples e paredes pintadas em um tom que ficava entre o amarelo e o bege. O quarto de Krickitt ficava diretamente abaixo do heliporto, então nós, frequentemente, ficávamos incomodados com o barulho dos helicópteros pousando e decolando. Ela também teve o privilégio de ficar num quarto vizinho ao de uma senhora que apelidamos de Dama dos Gemidos, porque ela passava horas gemendo. Entretanto, apesar do barulho que vinha de todos os lados, também tínhamos momentos de paz e tranquilidade. O quarto de Krickitt tinha uma janela que dava para um pátio interno, cheio de canteiros de flores e passarelas. Não havia nada florindo na primeira semana de dezembro, mas eu ansiava pela possibilidade de, algum dia, poder dar um passeio por ali com Krickitt ao meu lado. Ela já havia progredido bastante, e estava recebendo o melhor tratamento possível. Imaginei que não demoraria muito até que estivéssemos do lado de fora do quarto olhando para as flores e conversando sobre voltar para o nosso apartamento e nossa vida no Novo México.
Durante o tempo que ela passou em Barrow, tive a oportunidade de conhecer alguns dos outros pacientes que estavam nos quartos do mesmo andar que ela. Eles estavam em vários estágios de recuperação, e era bom ver os progressos que os outros estavam fazendo. Aquilo me deu mais esperança em relação à Krickitt. Alguns dos outros pacientes haviam passado por acidentes como ela, enquanto outros haviam sofrido AVCS ou aneurismas.
No dia seguinte, uma enfermeira e eu levamos Krickitt para dar seu primeiro passeio em outra parte do hospital. Nós empurramos a cadeira de rodas de onde ela estava até o refeitório dos pacientes para almoçar. Entretanto, Krickitt não estava preparada para ver outras pessoas com problemas neurológicos debilitantes. Percebi que ela estava com medo assim que entramos no salão.
— Isso assusta você, não é? — Eu disse, quase involuntariamente, sem
saber se realmente havia dito aquilo em voz alta ou se havia apenas formulado o pensamento.
— Sim. — Krickitt respondeu, com a voz ainda um pouco rouca depois de passar cinco dias com um tubo de oxigênio enfiado em sua garganta. Eu não esperava que ela me respondesse, e senti uma explosão de alegria apesar do estresse que eu sabia que ela estava sentindo. Voltamos para o quarto, e Krickitt fez suas refeições ali até que estivesse em condições de ir para o refeitório geral do hospital. Nosso médico aprovou o plano, pois ele não queria que ela tivesse que encarar constantemente os efeitos negativos e permanentes que afetam as pessoas com lesões no cérebro. Em vez disso, ele, assim como eu, queria que ela recuperasse sua força e se concentrasse em melhorar a cada dia.
Embora tivesse uma reação bastante ruim ao ambiente do refeitório, o gosto da comida, verdadeiramente, era um dos poucos prazeres que alegravam Krickitt. O horário das refeições acabou por se tornar um momento feliz para nós dois. Ela simplesmente gostava de comer. E eu adorava as refeições, pois eram praticamente as únicas vezes no dia em que Krickitt se mostrava mais animada. Enquanto passávamos aquele tempo juntos, ela começou a conversar mais, e parecia estar um pouco mais próxima a mim durante as nossas conversas.
Durante aquele primeiro fim de semana em Barrow, fomos informados sobre a programação diária de Krickitt. Ela começaria o dia com uma sessão de terapia ocupacional, na qual reaprenderia habilidades pessoais, como tomar banho e se vestir. A seguir, passaria por um fonoaudiólogo, que identificaria possíveis deficiências da fala causadas pelas lesões e ensinaria como superar aqueles problemas. Sua terceira sessão do dia seria com um fisioterapeuta. Durante esse tempo, ela trabalharia para melhorar a coordenação entre as mãos e os olhos, o equilíbrio e habilidades motoras. Finalmente, faria uma pausa para o almoço. Depois, ela passaria as tardes trabalhando com tarefas caseiras básicas, tais como cozinhar, passar o aspirador de pó e arrumar a cama.
Era difícil acreditar que Krickitt não tardaria a ter uma agenda cheia de tarefas. Afinal de contas, ela ainda estava tecnicamente em coma. Na verdade, os médicos não considerariam que ela tivesse saído totalmente do coma indicado pela escala de Glasgow até alguns meses após o acidente. Quando chegamos em Barrow, menos de duas semanas após o desastre, ela ficava acordada apenas durante algumas horas por dia, e estava extremamente desorientada. Em sua primeira noite em Barrow, ela acordou durante a madrugada e tentou ir ao banheiro sozinha, mas acabou ficando presa na grade de proteção da cama que havia sido colocada ali para sua própria segurança. Daquele ponto em diante, sempre havia alguém dormindo no quarto com ela, todas as noites. Aquela tarefa geralmente ficava a cargo da mãe dela, pois eu ainda não estava em condições de fazer muita coisa devido aos meus próprios ferimentos.
Como Krickitt ainda estava dormindo mais de 20 horas por dia e não conseguia acompanhar uma conversa por mais de um minuto ou dois, eu não tinha certeza do que iria ocorrer em seu primeiro dia de terapia. Naquela primeira manhã de segunda-feira, depois de ser internada, no dia em que ela seria examinada pelo Dr. Singh, cheguei cedo ao quarto de Krickitt porque
queria prepará-la. Minha intenção era acordá-la gentilmente e, depois, ajudá-la a se preparar para as atividades do dia. Tentei conversar com ela e acariciar seu rosto, mas não obtive resposta. A seguir, coloquei a mão em seu ombro e a agitei. Mesmo assim, não houve qualquer reação, por menor que fosse.
Naquele momento, o Dr. Raj Singh entrou, vestido como se tivesse acabado de sair das páginas de revistas de moda. Ele não era nada do que eu esperava, nada de jaleco branco, nada de estetoscópio, e nada de frieza profissional. Ele me deu um aperto de mão firme, aproximou-se da cabeceira da cama e curvou-se sobre Krickitt. Eu estava fazendo o melhor que podia para tentar acordá-la cuidadosamente, mas o médico tinha outros planos.
— Você tem que acordar. — O Dr. Singh disse, com firmeza.
Novamente, Krickitt não reagiu.
— Você tem que acordar. — Repetiu o médico, exatamente com o mesmo tom de voz. Nada.
Então, o Dr. Singh fez algo que eu nunca teria imaginado que fosse possível fazer. Ele estendeu o braço e deu um forte beliscão na altura da gola da camisola cirúrgica que ela estava usando. Os olhos dela se abriram repentinamente, e ela gritou: “Me deixe em paz!”, junto com um sonoro palavrão. Fiquei abismado ao ouvir aquele tipo de linguagem saindo da boca da minha esposa.
Entretanto, o estratagema funcionou, porque agora o Dr. Singh tinha toda a atenção de Krickitt concentrada nele. Ele pediu a ela que movimentasse a mão direita. Ela obedeceu. Depois, pediu que movimentasse o pé esquerdo, e ela o fez. O Dr. Singh olhou para mim e abriu um largo sorriso.
— Ela vai ter ótimos resultados. — Ele disse confiante. Em menos de uma hora, Krickitt já havia começado sua primeira sessão de terapia ocupacional.
Às vezes, eu tinha dificuldades para lembrar que Krickitt não fora a única pessoa que sofrera ferimentos no acidente: eu estava no meio das ferragens também. Enquanto estávamos em Gallup e Albuquerque, havia sido atendido no hospital cerca de seis vezes. Mesmo assim, não havia sido formalmente internado para passar a noite, porque não conseguia suportar a
ideia de ficar longe de Krickitt. Eu pensava nela o tempo todo, todos os dias. Mesmo quando cochilava por alguns minutos não conseguia relaxar, pois estava preocupado demais com ela.
Mas meus ossos quebrados estavam se regenerando, e os cirurgiões de Albuquerque conseguiram restaurar meu nariz e minha orelha. De forma surpreendente, dali a poucos meses ninguém diria que eu quase os perdera do meu rosto. No entanto a situação era bem diferente com as minhas costas. A dor que eu sentia era constante. Embora os cortes causados pelos estilhaços do vidro do teto solar estivessem cicatrizando, eu sentia dores lancinantes por toda a extensão da coluna. Nunca sabia quando teria um ataque de dor ou
quanto tempo cada crise duraria. Tive que tomar analgésicos muito potentes para conseguir passar os dias.
Quando pensava no que havia acontecido conosco, ainda ficava assombrado por nossas vidas terem sido poupadas. Meus pais haviam visitado o pátio onde os veículos acidentados ficavam guardados em Gallup para tentar encontrar minha carteira dentro do que restava do carro, Nosso carro novinho estava completamente destruído, e o interior estava coberto com sangue e cabelos. Parecia que ninguém havia sobrevivido ao acidente, mas, incrivelmente, nós três estávamos vivos.
Quando Krickitt estava a caminho da recuperação, consegui ceder um pouco da minha atenção para preencher os documentos exigidos pelo seguro e para organizar a papelada médica, que já estava começando a se empilhar. Durante nossos primeiros dias em Barrow, quando Krickitt ainda estava em coma, havíamos recebido uma ligação de uma das empresas responsáveis pelo equipamento de emergência. Para o meu desalento, eles já queriam saber
quando iriam receber o cheque com os valores devidos. Eu não sabia que a pressão financeira seria tão imediata.
Em meio a todo aquele estresse e incerteza, começava a me perguntar se seria capaz de dar conta de tudo aquilo. Minha esposa estava com uma lesão cerebral que não era totalmente conhecida, e eu estava em um estado constante de dor e preocupação, e já estava sendo pressionado para começar a pagar os valores astronômicos das despesas médicas. Como eu poderia suportar tudo aquilo?
Algumas vezes, chegava até a esquecer da enormidade da situação quando lembrava dos poucos momentos felizes ou coisas engraçadas que haviam acontecido durante as últimas três semanas. Entretanto, logo em seguida, começava a pensar em Krickitt, deitada no escuro naquela cama de hospital. Eu a imaginava lá, dormindo, respirando lentamente, um fôlego após o outro. Será que algum daqueles seria fatalmente seu último suspiro? Eu sabia que ela estava melhorando, mas e se ela tivesse uma recaída? E se os médicos não tivessem percebido alguma lesão grave, algo que poderia matá-la de uma hora para outra?
Em seguida, começava a pensar em como minha esposa ficaria depois que o processo de reabilitação e o tratamento estivessem concluídos. Não fazia nem três meses que estávamos casados, a estação não havia mudado ainda. Tivemos uma cerimônia de casamento fantástica e uma lua de mel no Havaí. Depois, nos mudamos para nosso apartamento no Novo México. E aquilo era tudo, toda a nossa vida de casados. “Será que Krickitt conseguirá voltar a ser a mesma mulher com quem me casei?” Era o que eu imaginava. “Será que ela vai se recuperar a ponto de poder ter uma carreira profissional? Será que vai conseguir ter filhos?”
Todos aqueles pensamentos se reviravam na minha cabeça, noite após noite, conforme a escuridão se transformava em cinza, até que finalmente as cores do dia apareciam. Então eu me levantava, me vestia e saía para mais um dia em Barrow.
Eu tinha a intenção de ficar em Phoenix durante todo o tratamento de Krickitt. Assim, me mudei para a casa dos pais dela quando chegamos ao Arizona, porque não sabia quanto tempo passaria ali. Durante aquelas primeiras semanas, mal pensei no meu trabalho ou em qualquer outra de nossas responsabilidades que haviam sido deixadas para trás, em Las Vegas.
Gilbert Sanchez, o presidente da Universidade Highlands do Novo México, havia tentado me telefonar no hospital em Albuquerque, quando eu ainda estava na sala de emergência. Ele finalmente conseguiu falar comigo logo depois de chegarmos a Phoenix. Eu disse a ele o que pude sobre nossa situação. Ainda havia muitas coisas que não conhecíamos, e expliquei a ele que não fazia ideia sobre quando poderia voltar para o Novo México e para o meu trabalho.
Depois da pausa para as festas do Natal e do Ano-Novo, meu time precisaria começar a se exercitar e voltar à forma física, e havia outras responsabilidades no departamento atlético que eu, ou alguém, precisaria resolver. Eu sabia que deveria ter entrado em contato com alguém da universidade para explicar o que estava acontecendo, e para encontrar alguém que pudesse me substituir, mas eu, simplesmente, não tinha tempo nem energia para fazer aquilo. De certa forma, havia abandonado meu time e meus chefes em meio a toda aquela tragédia.
Gilbert foi bastante generoso, como era sua característica, e também direto ao ponto quando conversamos ao telefone.
— Use todo o tempo que precisar. Você sempre terá um emprego conosco. Vamos procurar alguém para ajudar com os afazeres do departamento até que você possa voltar.
Ele também me fez prometer que lhe enviaria notícias sobre o estado de Krickitt a cada semana.
Nossos amigos na Highlands também estavam nos ajudando de outras maneiras, sem que tivéssemos pedido qualquer coisa a eles:
Mike recolhia nossa correspondência e a enviava para Phoenix, algumas líderes de torcida haviam se mudado para o nosso apartamento para cuidar das coisas, e, quando o dono do apartamento que alugávamos ficou sabendo do que havia acontecido, ele me disse que não precisaria me preocupar com o aluguel. Se tivéssemos condições de pagá-lo mais tarde, ele aceitaria o dinheiro, caso aquilo não fosse possível, não precisaríamos nos preocupar com o custeio da nossa casa. Fiquei chocado com toda aquela generosidade e desprendimento.
Alguns dos amigos de Krickitt vieram visitá-la enquanto estávamos em Albuquerque. Depois de ser transferida para Phoenix, outros velhos amigos também vieram e decoraram seu quarto no hospital com luzes de Natal e uma pequena árvore.
Lisa e Megan, as duas amigas com quem Krickitt dividia o apartamento quando era solteira, não conseguiram sair da Califórnia antes que minha esposa fosse transferida para Phoenix. Quando Lisa e Megan vieram, Krickitt estava com uma aparência bem melhor do que aquela que tinha quando estava na UTI de Albuquerque, embora ainda não fosse possível dizer que ela se parecia com a pessoa que era antes do acidente. Entretanto, como ela havia melhorado bastante desde que tudo acontecera, não imaginava que alguém, que não a tivesse visto desde o acidente, ainda pudesse ficar chocado com a aparência dela. Desta forma, eu não dissera nada que preparasse Lisa e Megan para verem Krickitt, que, àquela altura, estava com metade dos cabelos raspados, o olhar vidrado como o de uma boneca e a aparência geral de uma pessoa que estava em coma há três semanas. Quando chegaram ao hospital, Lisa correu rapidamente para o quarto para ver a amiga. Ela olhou demoradamente para Krickitt e começou a tremer. Abriu a boca, mas não foi capaz de dizer uma palavra. Eu rapidamente a acompanhei até uma sala de reuniões para as famílias no final do corredor. Passamos vários minutos ali, chorando juntos, antes que Lisa estivesse em condições de voltar para o quarto
de Krickitt.
Como todos os amigos carinhosos que vieram nos visitar, Lisa e Megan eram praticamente visitantes vindas de outro planeta. Elas vinham de um mundo em que as pessoas acordavam, tomavam o café da manhã, iam para o trabalho, assistiam à TV almoçavam e jantavam em restaurantes, liam revistas, cuidavam do jardim e faziam todas as outras coisas normais que compunham a rotina diária da vida, sem nem mesmo pensar a respeito de tudo aquilo. Meu
mundo havia se transformado em um lugar cheio de médicos, hospitais, comida de hospital, terapia, morar na casa dos meus sogros, negociar com empresas de cobrança e contas de despesas médicas, telefonar para nossa companhia de seguros, e passar o máximo de tempo possível ao lado de Krickitt. Meu emprego, meu time, meus amigos, minha vida de casado, tudo isso era como um sonho distante para mim.
Depois de pouco tempo na terapia, Krickitt estava melhorando. A cada manhã ela parecia estar mais forte, mais alerta e mais disposta a conversar. Aquele olhar perturbador já havia quase desaparecido, e ela estava começando a interagir mais naturalmente durante os diálogos.
Mesmo assim, os terapeutas ainda estavam sendo bastante cuidadosos com ela. Eles faziam com que ela se movimentasse vagarosamente, caminhando com o apoio de um colete que ficava suspenso por uma armação no teto, e trabalhava com quebra-cabeças simples. Quando ela passou a compreender diálogos e a responder perguntas, os médicos começaram a avaliar sua memória e outras habilidades mentais. No início, parecia que eles estavam conversando com uma criança. Ela falava usando apenas algumas palavras de uma ou duas sílabas, depois de longas pausas. Tinha que se concentrar bastante no que ia dizer, formando as palavras lentamente e cuidadosamente, como se elas lhe parecessem estranhas. Mesmo assim, melhorava dia após dia.
Não fiquei surpreso quando, apenas alguns dias depois que Krickitt começou a sair dos níveis mais baixos da escala de coma, ela quis escrever em seu diário. Ela ditou as palavras lentamente e com bastante esforço, enquanto sua amiga Julie as escrevia.
— A vida é muito boa. A terapia é muito confusa, às vezes. Sinto falta de como as coisas costumavam ser, das reuniões na igreja, do grupo de oração, mas sei que é assim que as coisas são.
Não demorou muito até que eu estivesse sentado com Krickitt, que estava falando com um terapeuta que sondava cuidadosamente as coisas que ela tinha condições de lembrar. Aquele “eu amo você” fora o primeiro sinal de que as coisas estavam lentamente voltando ao normal. Suas palavras a respeito de Deus foram outro sinal. Agora, eu estava pronto para receber uma prova ainda mais forte. Eu queria a minha esposa de volta.
— Krickitt, você sabe onde está? — Perguntou seu terapeuta, falando com uma voz tranquila.
Krickitt pensou por um momento antes de responder.
— Em Phoenix.
— Isso mesmo, Krickitt. E você sabe em que ano estamos?
— 1965.
“Ela nasceu em 1969”, pensei, sentindo um pouco de ansiedade. “É
apenas um pequeno contratempo. Nada com que se preocupar”, disse a mim mesmo, tentando me convencer daquelas palavras.
— Qual o nome do presidente do país, Krickitt?
—Nixon.
“Bem, Nixon era o presidente no ano em que ela nasceu”, justifiquei.
— Krickitt, qual é o nome da sua mãe? — Continuou o terapeuta.
— Mary. — Ela disse, sem hesitação... E sem demonstrar qualquer emoção.
“Bem, agora estamos chegando a algum lugar. Obrigado, Deus!”
— Excelente, Krickitt. E qual é o nome do seu pai?
— Gus.
— Está certo. Muito bem.
O terapeuta parou por alguns instantes antes de continuar.
— Krickitt, quem é seu marido?
Krickitt me olhou com os olhos vazios, sem qualquer expressão.
Ela voltou a olhar para o terapeuta, mas não lhe respondeu.
— Krickitt, quem é seu marido?
Krickitt olhou para mim novamente e voltou o olhar para o terapeuta.
Eu tinha certeza de que todos podiam ouvir meu coração batendo enquanto eu esperava, em meio ao silêncio e ao desespero, pela resposta da minha esposa.
— Não sou casada.
“Não! Meu Deus! Por favor!”
O terapeuta tentou mais uma vez.
— Não, Krickitt, você é casada. Quem é o seu marido?
Ela franziu a testa.
— Todd? — Ela perguntou.
“Aquele ex-namorado que vivia na Califórnia? Deus ajude-a a se lembrar!”
— Krickitt, por favor, pense com calma. Quem é o seu marido?
— Eu lhe disse. Não sou casada.
¹*A cidade de Phoenix fica no estado do Arizona, enquanto a cidade de Albuquerque, onde a personagem Krickitt estava recebendo o tratamento, fica no estado do Novo México. (N. 1)
Postado por Adm¹
Nenhum comentário:
Postar um comentário